Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

19 de setembro de 2016

1a c/ a 7a - A trilha de "Aquarius", patrimônio, memória cultural e música popular

Finalmente assisti Aquarius. Grande filme, e, sobretudo, que soberba atuação da Sônia Braga vivendo a crítica musical Clara. Antológica, ainda mais em se tratando de uma atriz que já fez alguns dos papéis mais icônicos da nossa cinematografia. Merece todos os prêmios e reconhecimentos possíveis, e merece sobretudo ser devidamente celebrada em vida. O elenco quase todo atua muito bem (menos o mauricinho Carrão, desperdiçando a chance de fazer um mauricinho verídico), sob a batuta segura do diretor Kleber Mendonça Filho. Nada no cinema dele é trivial. A trilha sonora deve ser, depois da magnética presença da Sônia, o principal eixo condutor da narrativa do filme. Sobre isso, talvez com calma eu venha a escrever mais. E Recife, uma cidade tão densa em sua história, cultura e paisagem, um centro pulsante da cultura brasileira e agora definitivamente afirmada na nossa cartografia cinematográfica. Acho que teria muito mais a dizer sobre o filme, mas acho que deixo pra depois, vou deixar decantar um pouco do que agora está em suspensão [entre tantas resenhas, uma aqui]. Quem não viu, vá ver o quanto antes. E quem viu, caso não tenha visto O Som ao Redor, dê um jeito de ver porque é melhor ainda. 

Resolvi então acrescentar mais alguma coisa aos meus comentários iniciais, escolhendo um ângulo que incorpora minhas reflexões de pesquisa. Mas cumpre mencionar de partida que consultei alguns textos para me balizar e recapitular alguma coisa, basicamente a matéria mais enxuta de Tiago Dias no uol; o comentário curto mas atento de Sílvio Osias no Jornal da Paraíba, e a crítica bem feita de Paulo da Costa e Silva na Piauí

Todos concordam que a música desempenha um papel fundamental no filme. O primeiro detalhe a se notar é a opção por usar uma trilha preexistente, pois aí já está dada a premissa para o que quero discutir, que é o acervo musical como patrimônio cultural. Na escolha da trilha entram diferentes determinantes, da eficácia comunicacional que música terá para a cena e o fio narrativo da história, a construção convincente de uma paisagem sonora retratada, a tradução do estado emocional de uma personagem, e até mesmo questões de ordem técnica, como na inserção de "Another One Bites the Dust", no começo do filme, cujo baixo proeminente ajuda a testar o sistema de som das salas de cinema, pois "É perfeita para ver se está no volume certo", diz Mendonça Filho, confesso fã de Queen, segundo relatado na matéria de Dias. A comparação na forma de usar a trilha preexistente, proposta por Osias, entre o diretor e cineastas como Tarantino e Scorsese, me parece acertada. E acrescento um detalhe que me foi apontado pelo músico Artur Araújo, tanto em Aquarius quanto em O Som ao Redor, do uso do som externo dentro da cena (uma leitura sobre o assunto, texto de Hermes Leal)No caso de Aquarius, entendo que se completa com um jogo astuto em que o som da trilha "entra" e "sai" da cena, ou seja, num momento ouve-se a música captada a partir de seus emissores (o toca-fitas do carro, o toca-discos de Clara, a televisão, o piano e as vozes de quem canta ) pela microfonação ambiente mesmo, como se quem assiste também estivesse inserido no quadro, e por vezes ele passa, até abruptamente, a ser reproduzido com qualidade de gravação direto na banda sonora, ou seja, tocando para quem assiste, como que reafirmando essa outra posição de assistir ao filme, de fora do quadro. 

Ouve-se portanto a música a partir de dois pontos básicos de escuta. Um, o dos personagens, na própria tessitura da história deles que se desenrola; outro, o nosso, ou seja, o do nosso presente e do que as músicas representam quando retiradas do que podemos imaginar como um arquivo, um grande armário de discos, fitas, cds, como o de Clara no filme - talvez um pouco arriscado, mas me arvoro a concluir que todo o apartamento dela é como uma alegoria de um tempo e uma sociabilidade em desaparecimento. Como coloca o Paulo C. Silva:

Gil, Roberto Carlos, Bethânia entoam o reservatório de um conjunto de valores e de um tipo de sensibilidade que serão condensados em Clara (Sônia de Braga), que de algum modo incorpora a textura afetiva, emocional, política e humana de certa classe média dos anos 1970. É uma textura indissociável dos elementos materiais que compõem seu habitat: samambaia, cômodas, livros nas estantes, posters de filmes e quadros (Kubrick, Miró) e, sobretudo, vitrola e discos, personagens fundamentais no filme – são objetos que definem de modo preciso a subjetividade da personagem, trazem visibilidade a seus valores, prioridades, sua relação com o tempo.

Preciso. Daí caber perfeitamente o recurso ao conceito de memória cultural, tal como empregam os pesquisadores alemães Aleida e Jan Assmann. Numa síntese, "A memória cultural é constituída, assim, por heranças simbólicas materializadas em textos, ritos, monumentos, celebrações, objetos, escrituras sagradas e outros suportes mnemônicos que funcionam como gatilhos para acionar significados associados ao que passou". Ou seja, no universo da cultura material a que somos apresentados no apartamento de Clara, está um estoque de recursos mnemônicos que podem promover a criação de nexos entre passado e presente. É um filme sobre o tempo, sua passagem, o desgaste das coisas, dos corpos, das relações humanas. Sobre aquilo que se perde e aquilo que se luta para preservar, mesmo contra um fluxo aparentemente irresistível, do progresso, da idade e do dinheiro - o que se traduz essencialmente no embate em torno do prédio Aquarius. O diretor, didaticamente, nos treina nesse mecanismo no primeiro trecho do filme, decorrido no passado, na celebração do aniversário da tia Lúcia, no momento em que seu olhar sobre o armário da sala lhe remete mentalmente a tórridas experiências sexuais de sua juventude. Todo o contato físico com os discos, o verdadeiro ritual de colocá-los e alguns comentários bem posicionados - o disco do Ave Sangria: "40 anos e toca perfeito"! - de forma a adquirirmos a certeza de que tudo aquilo traduz um modo de vida e valores que definem a identidade da personagem, como de fato usamos a rememoração de modo a retirar do que está disponível nesse "reservatório" aquilo que melhor nos traduz como indivíduos e como membros de grupos sociais, coletividades regionais ou nacionais, entre outros. Ante a imposição de imperativos econômicos e tecnológicos, objetos de outro tempo se ressignificam, o que fica patente na cena que disparou em minha a ideia desse texto, quando Clara tira de dentro de seu exemplar do Double Fantasy de Lennon e Yoko um recorte de jornal de poucos dias antes da morte dele, e desencadeia uma digressão que demonstra a singularidade daquele disco, que seria improvável para um arquivo de MP3. 
Ainda que Clara expresse o cosmopolitismo próprio de seu meio, O nacional importa bastante nesse caso,ao mesmo tempo o que ela escolhe pra colocar na vitrola via de regra o que seria o espectro de canções que classificamos por MPB, em geral da década de 1970, incluindo aí a escolha nada óbvia de O Quintal do Vizinho do repertório de Roberto Carlos. As escolhas da trilha são ecléticas até certo ponto, mas é sobretudo esse recorte do patrimônio musical brasileiro, da perspectiva da geração de classe média que foi jovem na passagem dos 1970s aos 1980s , que se sobressai.  Muitas pistas jogadas sobre esse tema do nacional, da interpretação do Brasil, começando por ser Sônia Braga a atriz que faz a protagonista, um dos maiores ícones do cinema brasileiro, que deu vida a alguns dos papéis femininos mais centrais da nossa cinematografia, mas reside nos EUA, mestiça que fala inglês, fazendo uma crítica musical que se chama Clara. Esse Brasil é contado na música, naquilo que lhe aproxima e lhe distancia. Sílvio Osias atenta para cena da praia, Clara com o sobrinho e a namorada, tentando explicar a tradução da desigualdade no espaço urbano recifense, no caminho de Boa Viagem até Brasília Teimosa onde irão ao aniversário da empregada doméstica (que claro, ao longo do filme desencadeia o bom e velho tema da herança escravocrata, que Kleber já abordara tão bem em O Som ao Redor) , que em seguida se metamorfoseia nas escolhas de repertório que caracterizam os espaços sociais pelos quais os personagens transitam, Alcione na aniversário, Villa-Lobos na casa de Clara, por exemplo.
A forma como a trilha tem repercutido, sendo citada e mesmo referenciada em outros contextos, sinaliza justamente esse valor cultural, essa disposição para ser ressignificada que especialmente a canção popular apresenta. Se toda a história, e especialmente seu desfecho, representa uma tomada de posição em enfrentamento ao descarte, à sumária destruição do que remete ao passado, à decrepitude do corpo e o desprezo para com os velhos, a música é  um verdadeiro contraveneno, representando a celebração da vida, dos laços,  da experiência. Num momento que guardei como bastante emblemático, ela decide enfrentar a festa de arromba promovida para demovê-la de permanecer em seu apartamento não chamando a polícia, mas botando no talo mais um petardo do Queen, Fat Bottomed Girls. Contra tantas ameaças, literalmente nadando no mar de tubarões, Clara resiste e assume (recebendo talvez apoios inesperados e não recebendo alguns esperados) essa posição de enfrentamento e resiste, ainda que provisoriamente, à voragem dos cupins. Penso que reconhecer a importância do patrimônio cultural, especialmente aquele associado à música popular, representa exatamente isso: nossa disposição em não sermos devorados.
 




 









Um comentário:

  1. Alberto Júnior [via facebook] Saí do filme emocionado em ver a Clara como a representação do ideal de desenvolvimento que sempre quisemos, na qual estão coadunados identidade Nacional, patrimônio e cultura como representação do principal valor que o país tem, imaterial, em contraposição a essa vontade que o país sempre buscou em ser "desenvolvido", a partir do referencial capitalista que o imperialismo americano ainda hoje impõe. Nisso, está inclusive todo processo de novas formas de economia colaborativa que o país estava levando em frente. Achei interessante que o filme possibilita essas diversas leituras. E fiquei pensando nisso : um filme massa que coloca na gente uma afeição direta com a personagem da Clara, uma heroína, cheia de referências históricas de luta e resistência, de valores que estamos perdendo, como a família diversa e acolhedora, a importância dos rituais na vida (a música do parabéns me colocou essa tradição familiar), o valor da ética, enfim, uma mulher grande e que provoca forte ebulição ao confrontar tudo que tenta derrubar o que ela construiu simbolicamente, mas também cede ao "jeitinho brasileiro" para resolver seu problema patrimonial. Tudo isso, as virtudes e os problemas da Clara, nos colocam diante da complexidade que é o Brasil. A mim, Clara representa diretamente algo que me é muito caro: a defesa da ideia de que os discos são uma importante referência de formação cultural.

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