Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

16 de julho de 2016

Salve, João Bosco

João Bosco completou 70 anos, produzindo bastante e na eminência de lançar disco novo de inéditas [leia aqui], e a data merece ser marcada. Pensei em fazer algo diferente do costume que tem sido simplesmente repostar na página de facebook as principais postagens que tratam do aniversariante da vez. Vou então reunir algum material novo e agregar um texto da minha tese. Aproveito dois vídeos de grande interesse que meu parceiro Pablo Castro compartilhou ontem. 



O primeiro é o registro histórico promovido pelo Instituto Moreira Salles, em que João Bosco executa com banda o disco Galos de Briga todo no palco e com as histórias sobre sua gravação.
 


O segundo é o clipe exibido em 1978 no Fantástico da canção Tiro de Misericórdia, poderosa crônica musicada de Bosco e Blanc sobre a ascensão de um pequeno rei do crime nos morros cariocas, prefigurando o cenário descrito pela antropóloga Alba Zaluar em seu livro Condomínio do Diabo, ou a imagem mais popularizada do livro Cidade de Deus de Paulo Lins, posteriormente transformado em filme. Esse pequeno texto de Alba dá uma base para refletir sobre o assunto [aqui]. A obra de João Bosco, especialmente em parceria com Aldir, é um inventário impressionante do cotidiano urbano e dos conflitos constituintes da realidade social brasileira.  Pinço da tese dois comentários sintéticos sobre a obra de João.



César Camargo Mariano:

“João é de uma fertilidade e de uma riqueza tão grande que não é possível prever o que virá em seguida. Ele trabalhou em cima do rock e das músicas que ouvia no rádio; em cima dessas fontes fez suas pesquisas, descobriu-se e descobriu coisas novas. Usa várias afinações no violão, o que multiplica as possibilidades do instrumento. Com tudo isso, e mais sua grande intuição de ritmo, ele consegue montar uma estrutura melódica tão boa que poderia comunicar mesmo sem letra”.


Tárik de Souza:

“Sem uma tradição ou uma escola, a música de João Bosco e Aldir Blanc é filha de todas as tradições e escolas: o Villa-Lobos e o Roberto Luna de Auxiliadora [irmã de Bosco] em Ponte Nova; os chorinhos e as músicas carnavalescas na eletrola do avô [de Blanc]; Ângela Maria, Cauby Peixoto e Dalva de Oliveira no rádio; e o ritmo importado de Elvis Presley e Little Richard, executado onde nem a eletricidade chegara. Seresta em Ouro Preto; samba e quadrinhos no Estácio. A classe média carioca e mineira observando a vida urbana e suburbana sob o prisma de milhares de influências musicais que formariam uma nova música popular brasileira”.

 

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