Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

19 de janeiro de 2016

COISAS VÃS

Puxar pelo fio a memória da composição de uma canção feita há mais de 10 anos, como me disponho a fazer aqui, pode ser uma tarefa ingrata. Pode ser que anotações, esboços, e até mesmo registros em áudio a que se possa recorrer, eventualmente não estejam bem referenciados, datados e organizados. Eu mesmo não tinha ideia de que poderia vir a gostar desse exercício de arqueologia das minhas próprias letras, portanto rasurava sem dó, perdia, manchava, rasgava, amassava e até jogava fora todo tipo de estudo preliminar que hoje poderiam ser verdadeiros fósseis, ou papiros, a auxiliar a tarefa. No caso de "Coisas Vãs" até que não tenho do que me queixar, tenho aqui comigo alguns esboços escritos na velha agenda ano 2 mil que ainda me serve de caderno, mais duas versões diferentes da final em arquivos txt - acho que essa mania de gravar nesse formato não perdi porque lembra vagamente papel datilografado - e ainda uma antiga gravação em MP3 datada de 2005. É provável que as primeiras versões da canção datem de 2003, 2004. Mas não pretendo entupir esse relato de exemplificações sobre mudanças de versos, palavras aqui e ali. Vou apenas me servir disso na medida em que me permita contar um pouco sobre a feitura da letra. De início, direi antes de mais nada que foi muito trabalhosa. Vejo aqui versões enormes, com muitas ideias e partes descartadas. Lembro que estava num período de muito esforço profissional, viajando toda semana para dar aula no interior e ainda trabalhando no museu histórico de Belo Horizonte. Nessa época, com certa relutância, pedi ao Pablo pra gravar no meu computador, com auxílio daquele microfone mais simples mesmo, as canções que estávamos fazendo, porque não conseguia manter com ele um ritmo de trabalho cara a cara, como até a época da gravação do disco A Outra Cidade estávamos acostumados. Me rendi a uma forma de trabalho que me incomodava então, mas que hoje venho usando com naturalidade e assim tenho feito com diferentes parceiros nos últimos anos - histórias que certamente terei oportunidade de contar noutras postagens. 
A melodia me sugeria, a princípio, um sabor ibérico, especialmente no A. Reparem que ela tem uma forma curiosa, A-B-A-B-A-B, mas, a não ser o trecho 'coisas vãs', nada se repete ao longo da letra. A música me levou a pensar, provavelmente pela cadência, em viagem. Junto do título, no primeiro rascunho que encontrei, está escrito 'canção do exílio n° 25'. Julguei ter visto em algum lugar Sabiá (Tom Jobim/Chico Buarque) sub-entitulada 'canção do exílio n° 2' (não consegui me certificar disso agora) e dei uma brincada com isso. Depois sumiu. Mas tava ali a semente, o tema do exílio casado com a necessidade do desprendimento. Daí talvez tenha emergido a aproximação com o nomadismo, que por sua vez foi puxando um pouco assuntos como religião e nacionalismo - o que ficou consolidado no 2° A, "Anda, tuaregue...". 


Não posso deixar de mencionar que nas dobras mais antigas da minha memória está gravado o fascínio pelo deserto e por uma perspectiva da história e da cultura árabes que escorre da obra de Malba Tahan, que meu pai me ensinou a admirar quando eu era bem pequeno. Havia ainda a sombra do 11 de setembro de 2001, de alguma forma se apresentando como evento que capturava o drama e as contradições políticas naquele momento. A versão original guarda alguma pista disso, citando nominalmente Bush (dele sobrou o jogo com a palavra 'desembucho') e Saddhan. Felizmente a letra caminhou para uma reflexão mais ampla, deixando para trás esses traços que poderiam levar para a direção do "comentário", deixando-a mais datada. 

Havia também um Freud e a óbvia 'divã', devidamente riscados do mapa, mas restaram aqui e ali algumas referência às relações familiares e privadas, especialmente em analogia à dimensão social mais ampla que estava propondo. Desprendida ela própria de seu contexto imediato, foi caminhando como reflexão que se constituía a partir de um diálogo imaginário, em que o "eu" lírico debate com alguém que tem opiniões divergentes das suas, alguém aferrado a verdades religiosas e políticas. E nesse sentido, aludir ao nomadismo dentro do universo árabe-saariano parece um bom contra-argumento ante tanto senso comum associando islamismo e fundamentalismo, por exemplo. Como historiador eu sou obrigado a mencionar o exemplo clássico da tolerância religiosa durante a ocupação árabe da península ibérica. Enfim, decididamente o trabalho maior foi de ir decantando, separando o que era o grão de areia ponderado daquela enxurrada inicial. E aí, nas últimas ajeitadas, acatei algumas sugestões do Pablo, que é uma coisa que eu acho muito natural em parceria, especialmente quando o parceiro também faz letras, e muitas vezes acato sem nem titubear porque quem está cantando tem outro feeling da coisa, e também precisa se sentir convicto daquilo que canta. No final, tudo conspirou por uma canção que, creio eu, não é vã.

Enorme a expectativa de vê-la gravada, mas por agora vai esse belo registro ao vivo, com fotografia e edição de nosso caríssimo amigo Virgílio de Barros. 



Coisas Vãs (P. Castro/L. Garcia)

Venha, não se agarre
nunca se atenha
saia, não se aferre
nem se detenha
o tolo se embrenha
em coisas vãs

Pensa que é deus
a dar sermão
me acusa de pagão
ouço no silêncio exterior
o som do grão de areia a ponderar
a distância interna de um olhar

Anda, tuaregue
vai sem destino
Mova, beduíno
terras renegue
todo hino é senha
de coisas vãs

Acha que é mãe
pátria gentil
mas outra te pariu
escuta o meu motivo anterior
o som do vão da porta a se fechar
consciência de abandonar

Solte, não se amarre
ou se contenha
livre, não se enterre
nada retenha
a fé cega é lenha
de coisas vãs

Você quer pai,
filho que és
eu vivo dos meus pés
desembucho o pulso do tambor
tum-tum do mundo todo a convidar
violência de nos libertar

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