Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

9 de agosto de 2015

Aula de canção: Hoje é dia de El Rey

Hoje é Dia dos Pais. Eis a grande canção sobre a paternidade e o embate de gerações, no que tem de mais humano e poderoso, escrita por Milton Nascimento com letra de - não poderia ser outro - Márcio Borges. A censura que sofreu quando da gravação e lançamento do LP Milagre dos Peixes pode ter lhe cortado a carne, mas o sangue que sai dessa ferida ainda banha nosso coração. Não há como ficar incólume à audição de Hoje é dia de El Rey. O poderoso dueto imaginado entre Bituca e o mestre Dorival Caymmi ficará irrealizado, mas será imaginado a cada vez que tocar o disco.

No final dos anos 1990, enquanto fazia a pesquisa para minha dissertação de mestrado, encontrei a transcrição completa da letra original censurada na dissertação inacabada de Magda M. Alves, Autoritarismo e censura no Brasil: notas preliminares de pesquisa(póstuma). Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, Mestrado, 1978. Na época, por imaturidade, não percebi que seria importante transcrever a letra toda e dar mais destaque ao que deve ter sido um dos primeiros extratos de pesquisa que conseguia trazer algo dos arquivos da censura. Hoje o acesso é bem mais amplo, pois estão sob responsabilidade do Arquivo Nacional. Recentemente, uma matéria publicada no jornal O Globo abordou o assunto em detalhe [aqui]. Sendo assim reproduzo o trecho da minha dissertação escrita há quinze anos atrás com um misto de satisfação por ver que as pistas que reuni ali se mostraram importantes para os estudos sobre a censura e a obra de Milton e do Clube, e arrependimento porque no afã de tratar de muitas coisas a gente às vezes peca por não explorar mais detidamente algumas das evidências que encontramos.

A letra completa se encontra no blog Pérolas aos povos, do qual reproduzo:

 
Filho – Não pode o noivo mais ser feliz
Não pode viver em paz com seu amor
Não pode o justo sobreviver
Se hoje esqueceu o que é bem-querer
Rufai tambores saudando El Rey
Nosso amo e senhor e dono da lei
Soai clarins pois o dia do ódio
E o dia do não são por El Rey

Pai – Filho meu ódio você tem
Mas El Rey quer viver só de amor
Sem clarins e sem mais tambor
Vá dizer: nosso dia é de amor

Filho – Juntai as muitas mentiras
Jogai os soldados na rua
Nada sabeis desta terra
Hoje é o dia da lua

Pai – Filho meu cadê teu amor
Nosso Rey está sofrendo a sua dor

Filho – Leva daqui tuas armas
Então cantar poderia
Mas nos teus campos de guerra
Hoje morreu a poesia

Ambos – El Rey virá salvar...

Pai – meu filho você tem razão
Mas acho que não é em tudo
Se o mundo fosse o que pensa
Estava no mesmo lugar
Pai você não tinha agora
E hoje pior ia estar

Filho – Matai o amor, pouco importa
Mas outro haverá de surgir
O mundo é pra frente que anda
Mas tudo está como está
Hoje então e agora
Pior não podia ficar

Ambos – Largue seu dono e procure nova alegria
Se hoje é triste e saudade pode matar
Vem, amizade não pode ser com maldade
Se hoje é triste a verdade
Procure nova poesia
Procure nova alegria
Para amanhã...





"O disco apareceu com a metade das músicas instrumentais, mas vocalizadas de maneira a deixar explícita sua natureza de canção e a censura das letras. O encarte trazia mesmo o crédito aos letristas, de maneira a explicitar de forma brusca aquele corte profundo. Os gritos de Milton traziam em sua crua selvageria um sinal da rebeldia ancestral que as palavras muitas vezes não lograrão descrever. SOUZA fala em uma verdadeira “estética do silêncio” que traduz a generosidade do cantor[1].
A gravação de Hoje é dia de El Rey preservava um enigmático “filho meu...”, como se as palavras, privadas de seu significado original, estivessem ali apenas para deixar evidente que houvera censura. A letra censurada trazia a descrição de um presente negro, sem amor e poesia, que deveria ser superado pela luta:  “(...)Se hoje é triste a verdade/procure nova poesia/ procure nova alegria/para amanhã (...)”[2]. O próprio autor Márcio Borges repara tratar-se aí da comum imagem do “dia que virá”. O que estaria sendo censurado? Talvez, as referências claras à luta armada, soldados, guerra. Mas o que realmente chama a atenção na letra é sua forma de diálogo, que retrata o conflito entre duas gerações, duas mentalidades. A luta entre o pai e o filho torna-se representação alegórica do conflito social entendido pelo prisma geracional. Podemos ver El Rey como a encarnação do governo, que o pai apoia e contra o qual o filho se rebela, inclusive através de armas. A canção procura assim situar os conflitos próprios daquele momento no Brasil num quadro muito mais amplo, de um conflito geracional." (GARCIA, 2000).




[1] SOUZA, Tárik. “Sem palavras”. Veja. São Paulo: Abril, 11/06/1973, p.76.


[2] BORGES, Márcio. op.cit., p.304.

2 comentários:

  1. A letra resgatada no Arquivo Nacional difere ligeiramente da postada acima.

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    1. Caro "anônimo",entendo que sim, no entanto até o momento essa versão não parece que está disponível on line. Se tiver essa transcrição à mão agradeceria se compartilha-se. Abraços e volte sempre.

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