Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

22 de maio de 2015

INTUIÇÃO

Ainda estou sob forte impacto do memorável show de meu parceiro e amigo querido Pablo Castro ao lado do brilhante e "incontornável" (como diria o Pablo) Flávio Henrique no excelente Projeto "Dois na quinta" do BDMG Cultural, que teve lugar. O entrosamento dos dois no palco, junto a uma cozinha acertadíssima, e uma impecável seleção do repertório de ambos, entrelaçado de forma perfeita, resultou num espetáculo sensacional, e pareceu mesmo que os dois já fazem esse show há anos. Quem não viu peça pra ter outro. Aliás, quem viu também vai pedir. Contente de ver nossas parcerias apresentadas assim, em alto nível, com grande reconhecimento do distinto e estimado público que lá esteve. Fora as preciosas participações da Leopoldina e do Pedro Morais. Presenças especiais, fora a família que compareceu para celebrar o aniversário da minha filha no show do padrinho. 
Ouvir uma música desse apuro sendo tocada, ouvir as canções que compus em parceria com o Pablo junto de outras dele e do impecável repertório de canções do Flávio e respectivos parceiros, fora a recém parida parceria dos dois, me encheu de contentamento.
Todas essas circunstâncias felizes acabaram me incentivando a escrever esse texto, por muito protelado, sobre uma canção tão única e marcante como é Intuição. Antes de tudo, por ser uma "quarceria", um tanto rara para a forma como costumo compor, e sendo os outros 3 parceiros compositores músicos que admiro imensamente, pessoas por quem tenho grande estima, camaradas mesmo, cada qual por um modo e ritmo próprio. Falo de Pablo Castro, Kristoff Silva e Makely Ka, os grandes responsáveis por liderar um projeto que riscou os horizontes belos, porém eventualmente aquietados, da cena musical belorizontina e mineira, com consequências profundas para a sequência dos trabalhos independentes em nossa cena, e, sem medo de lauda desmedida, impacto para muito além das Alterosas: A outra cidade (um pouco mais dessa outra história, aqui, aqui, aqui). 
Sendo assim, adianto que não poderia, nem se eu tentasse, contar toda a história de Intuição. Prefiro e creio mais adequado fazer um exercício, recolher algo de reminiscência do impulso que deu origem a alguma coisa que foi ali uma espécie de crisálida, que depois de um tempo voltou como uma borboleta pronta, esvoaçando e pousando no meu ouvido. Estava ali contemplando aquela forma embrião, aquela primeira célula, aquelas notinhas se insinuando nas cordas do violão do Pablo. Pelo que me lembro era aniversário dele, uma festa no apê da Zoroastro Torres, muita, muita gente. Muita conversa animada. Não sei se ele já havia tateado aquela introdução antes, ou se foi ali, no meio do caos, que a larva se esgueirou pela madeira à procura de folhas. Sei que eu encontrei o papel, um dos vários cadernos de rascunho que mantínhamos ali entrando e saindo da vista. Então, literalmente, o vento soprou no meu ouvido: in-tu-i-ção. Enquanto o embrião de uma valsa brasileira se formava, em divisões celulares, foi surgindo o enredo, que era o desvendar de uma traição. 
Intuição
pedi pra ver no bolso a carta sem endereço
falso penhor de amor
Intuição
perdi de vez no rosto o beijo sem recomeço
pouco pendão de valor

Nem consigo mais recuperar nos rabiscos que restaram comigo o restante da sucessão de intuições e outras palavras que lhe sucediam. Mas ali estava uma história, de certa forma conandoyliana, pontuada das pistas do adultério que iam sendo descobertas rumo à fatídica ruptura. Ninamos eu e o Pablo a valsinha por ali, mas em algum momento ela parou de engatinhar, foi ficando em pé, ganhou outra parte musical composta pelo Kristoff. Eu tive, a partir daí, inúmeras oportunidades de dar sequência à letra, mas não achava o sossego necessário para cevar a criança. Em maio de 2002 nasceria minha filha Maria Luiza, outra criança que eu precisava ninar. Foi portanto por uma necessidade de sobrevivência, por um impulso da criação, que o Makely tomou pé da tarefa de levar adiante o desenvolvimento da cria, acrescentando uma dimensão psicológica, machadiana, desse entrevero emocional, nos conduzindo a todos pelos meandros da relação do fictício par, belamente arrematado numa resolução musical e lírica de retorno ao descanso, metanarrativa econômica em direção ao repouso. 
Salvo pelas peças que a memória às vezes prega, eu ouviria essa canção assim, e a soube definitiva, na casa da Alda Resende, já então escalada para interpretá-la - e a borboleta encontro na voz dela o melhor pouso. Ao mesmo tempo que me fascinou o resultado final, fiquei aqui e ali ainda apegado a uma ou outra palavra, porque ainda não entendia bem como eu tinha ficado naquele parto. Mas ela estava ali de asas abertas, pronta pra voar. 
Com o tempo eu fui entendendo que aquela filha de muitos pais (e naquele momento a paternidade para mim era algo imensamente concreto) era feita (e perfeita) daquele jeito, trazendo os traços de seus genitores de uma forma que era única, irrepetível. A gravação com tudo que tem, com Alda, com arranjo de Flávio Henrique, confirmou. O reconhecimento e a adesão apaixonada dos ouvintes, desde então, faz lembrar o conto de Bradbury, em que a vida de uma simples borboleta - que nele se extingue - guarda o potencial de afetar a história do mundo. 
Voltando ao começo, ontem uma das coisas que me emocionou foi a minha filha, completando 13 anos, cantando todas as nossas, inclusive Intuição. Meu coração bateu, sem nada mais se opor.


Intuição (música de Pablo Castro e Kristoff Silva; letra de Luiz Henrique Garcia e Makely Ka)


Intuição
peguei pra ver no bolso a carta sem endereço
frágil esboço de amor
Confirmação
pedi pra ler na bolsa a letra que desconheço
resta um pedaço de flor
Na discussão
perdeu-se a direção
então nem se sabia o rumo a se retomar

Desilusão 
provei amargo o gosto e enxugo em seu próprio lenço
o sumo que sai no suor
Consumação
ardeu de vez no rosto o beijo que não mereço
sela o batom traidor
Sem intenção
talvez todo esse tempo eu tenha sido até um pouco omisso, sim
retrátil
Só impressão
ou em sua versão não passo de um mero compromisso
circunstancial


Vou reconsiderar, rever conceitos, talvez haja um jeito
de te perdoar, de reconciliar, pra que volte o amor
e cesse essa dor
e não seja só...
cada um por si / ambos a sós / se falo por mim / peço por nós


Mas por precaução
se ouvir um não disfarço e finjo que nem conheço
"ora me faça o favor"
Indecisão
um coração que pulsa tenso em seu descompasso
tentando se contrapor
À recordação
uma canção que ouço e me devolve ao começo
sem nada mais se opor




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