Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

12 de abril de 2015

CARPE DIEM


Retomo, depois de algum tempo, a série sobre as canções que escrevi, dessa vez falando um pouco sobre Carpe Diem, em que fiz a letra para música do Pablo Castro, bem a tempo de integrar a lista das que seriam gravadas no álbum A outra cidade (2003) [um pouco de sua história, aqui; para comprar - vale a pena! - aqui]. Na época da gravação do disco eu estava cheio de obrigações profissionais e domésticas, e não pude participar do processo na intensidade que gostaria. Mas certo dia calhou de estar com o Pablo e ele me apresentou, ao teclado, uma canção que a princípio recebera uma letra em inglês da qual ele não se lembrava. Uma parte já estava bem definida, a outra nem tanto. Gostei de cara da melodia e da harmonia, ouvindo ali o encontro das águas das obras dos Beatles e do Clube da Esquina, que ambos admiramos e tomamos como referência fundante do nosso fazer musical e experiência cultural. Creio (mas a memória pode muito bem estar me traindo aqui) que o baita poeta/compositor Renato Negrão, que, diga-se de passagem, deixou também sua marca no disco, depois reparou em traços que remetiam a Guilherme Arantes. Ainda que não tão consciente ou explícito, pode ser, ainda mais pela força do elemento "água" ao longo da canção. De fato ela fluía enquanto eu embarcava nas primeiras audições. Havia uma urgência, uma vez que o repertório para o disco estava sendo fechado, mas talvez não tenha sido essa, e sim a urgência de criar, a que fez a letra ir saindo jorrando. Quando é assim tendo a confiar nos instintos e me deixar levar, aproveitando a correnteza. E ela foi me levando pela aventura da juventude e o tema do enfrentamento do mundo. A primeira imagem forte, marinha, veio de um romance que me marcou desde sempre, o Robinson Crusoé de Daniel Defoe. Um náufrago que enfrenta as maiores adversidades. A primeira estrofe, a princípio, depois do "sem medo de naufragar..." encerrava-se "Sexta-feira". Pensava num duplo sentido, lennoniano, entre o dia da semana e o nativo do livro. Acabou dando lugar a uma solução que se ajustava melhor à melodia. Quando achamos uma boa primeira estrofe da qual gostamos, é como se abrisse a porta da represa, o resto vem desaguando e preenchendo o leito cavado pela música. O corpo, primeiro substantivo escolhido, acabou puxando outros referentes ao sujeito protagonista dos versos, a face, a vista, a mão, o peito, os pés, a voz. É também uma letra "cinética", com apelo ao gesto e ao movimento, expressa em verbos como "alçar", "erguer", "lançar", "mover". Pensei aí na palavra "vertical", achando uma coisa tremendamente Márcio Borges, e daí só podia ir para o sol. Não acho impossível o sol ter levado a reino, o que pode ser lógico para um historiador, mas o conhecedor de Beatles poderá reportar-se à canção Sun King. O magistral arranjo do Avelar Jr., com cordas e metais georgemartinianas, é de uma pertinência absurda. As referências são como um jogo, um quebra-cabeças que gostamos de pensar como o ouvinte poderá montar. Muitas vezes o autor será surpreendido com as soluções que não lhe ocorreram.
Lembrei ainda das aulas de física e dos ensinamentos de Arquimedes, que reli de um ponto de vista político. Mas a convicção, a disposição pela ação e a ousadia do sujeito, dão lugar à segunda parte (que formalmente não se repete totalmente na letra, por isso podemos dizer que não é propriamente um refrão, mas um B e B'), em que a mudança na música (que foi se definindo melhor pelo caminho em que as palavras já tinham seguido) encontra na letra a ponderação de que os tesouros são passageiros, e que no reino do agora todo ouro evapora (um eco, claro, de uma certa passagem de Marx). Assim, toda força e protagonismo que o narrador alardeia acaba contraposta à efemeridade das conquistas. Um bom retrato dos sentimentos de juventude. Daí o uso da expressão Carpe Diem para dar o título, se nem tanto pelo uso consagrado na boca do inesquecível John Keating do saudoso Robin Williams em A sociedade dos poetas mortos (definitivamente, para mim, um filme de geração), pelo de desdém no amanhã contido em seu emprego clássico.  

Carpe diem (música de Pablo Castro, letra de Luiz H. Garcia)  

Se o corpo pede   
Eu não sei negar 
Tomar do mundo   
Sem medo de naufragar   
E morrer...  

Se a face rubra   
Eu não vou esconder   
Ousar de tudo   
Sem porto pra me prender   

A vista alçar Vertical   
Rumo ao selvagem trono do sol 
A mão erguer sobre o reino do agora   
Todo ouro que evapora   

Se a luta exige 
No peito encontrar   
A dor do mundo 
E o ponto de alavancar  
E mover...   

Se a rota torta   
Nos pés a perder   
Olhar o chão e o grão   
Que ainda vai nascer   

A voz lançar   
Vento ao léu   
Um diamante pra moça do céu   

A mão erguer sobre o reino do agora 
Todo ouro que evapora   
Do agora  Todo ouro que evapora



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