Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

12 de abril de 2015

A FEIRA

Continuando a série, hoje vou escrever sobre A Feira. Há vários caminhos pelos quais as letras podem se encontrar com as canções. Esse aconteceu de forma bem peculiar. De certa forma, foi como se as duas fossem velhas conhecidas, andando pelo centro de Belo Horizonte, que acabaram se trombando casualmente. Então, vão gastar horas matando a saudade, botando a conversa em dia. Assim também comecei A Feira como um texto livre, vagamente sugestivo para uma canção. Às vezes me coloco, como compositor, uma espécie de desafio, no sentido de conseguir explorar determinados temas e procedimentos que identifico como "tradições" dentro da canção popular. Nesse caso, penso na série de canções que compõe quadros urbanos, cenas do cotidiano da cidade muito bem descritas, quase como se colocassem o ouvinte dentro de uma pintura ou fotografia em movimento transportando-o por lugares e situações que se relevam ao mesmo tempo inusitadas e familiares. Assim eu queria, com meu próprio traço, fazer algo na linha de uma Penny Lane ou de um Domingo no parque. Veio a feira como ambiente em que poderia, com facilidade, imaginar enredos, personagens, close ups e panorâmicas. O primeiro esboço que escrevi, guardado numa velha agenda que ainda hoje utilizo para rascunhar alguma coisa, deixa escapar que o citadino eu lírico iria começar passando por um açougue que a borracha da criação (sim, apagar também pode ser visto como um gesto criativo) logo encarregou-se de desfazer em entulho de tinta borrada, e ao final iria pra outro lugar na sequência da narrativa, rumo a uma padaria à qual nunca chegou pois a feira acabou sendo bem mais interessante. Acontece que poucos dias após ter rascunhado as barracas e personagens dessa feira, o Pablo me mostrou um contagiante tema que estava compondo ao violão (gilbertogianissimamente influenciado), basicamente a primeira parte e um esboço de refrão, me pediu a letra. Não tive dúvida e respondi que já estava pronta. Como assim? ele retorquiu, com surpresa. Aí eu expliquei que tinha feito um texto que estava, por obra e mistério que eu mesmo não conseguiria esclarecer, destinado a ser a letra daquela música. 


Essa inegável sinergia poderia sugerir um desenlace rápido, um pique de 100 metros rasos rumo ao resultado final. Que nada! Foram alguns anos, idas e vindas de personagens e situações, e muitas, muitas versões do refrão, em que a carismática sacoleira se manteve firme e forte mas o resto mudou tanto que seria preciso uma verdadeira arqueologia para escavar suas várias encarnações, e por todo trabalho que essa letra já me deu agora não me disponho a tanto. Mesmo quando eu já considerava a letra encerrada, vinha o parceiro querendo outra mexida. Tenho como premissa que na parceria os dois (ou mais) tem que estar completamente satisfeitos com o resultado antes do martelo ser definitivamente batido, antes do peixe ser vendido. Assim continuei passando tinta por cima do quadro. E aí surgiu um bendito festival, em Viçosa se não me engano. Essa canção sempre teve "cara" de festival - ganhamos inclusive a 3a. colocação no referido - e a decisão de inscrevê-la acabou impulsionando a concretização de sua forma final. Me veio a ideia de homenagear os festivais da década de 1960, fazendo aparecer o verso "ciranda e arrastão". E o arremate, o pedido ao Oliveira por mais um pastel e um trago pro pai, um complemento à coloração mineira e belorizontina que permeava toda a letra. Como que para confirmar essa vocação de continuar mudando, enfim como a própria feira e a própria cidade, quando da gravação o Pablo acabou improvisando o cai cai balão no falso final tributário do Let 'em in do bom e velho Paul McCartney. O longo caminho por avenidas e vielas chegava ao fim como tinha que ser, remetendo a mais um dos compositores que tinha deixado o recado dentro da "tradição" que identifiquei como inspiradora do princípio da letra.

Depois de tudo isso ainda teria mais um tanto de história pra contar. Inclusive sobre o vídeo que nosso grande amigo comum Virgílio de Barros produziu na feira da Afonso Pena (é mister que eu diga que A feira é uma junção ficcional de "n" feiras e não foi inspirada especificamente por essa que é a mais famosa de nossa cidade, mas acabou virando um hino informal da mesma) com incansável disposição e que ficou por um tempo como algo para apreciação em nosso círculo, mas que por conta dessa iniciativa pedi que ele liberasse os direitos para o deleite dos leitores do blog.

  



A feira (P. Castro / L. Garcia) 
Domingo de manhã, foi, 
eu fui à feira procurar um agrado 
para o meu amor
 é, sabe cumé 

E procurando eu acho 
um par de brincos bem do azul que ela adora 
lá no peruano 
tem, eu faço fé 

Tem gente que encomendou 
muamba do Paraguai 
migrante do interior 
olha Seu Agenor 
"são 3 por 1, a tia quer levar caqui?" 

A sacoleira sabe que não cai 
dinheiro do céu 
A tarde inteira, gente se distrai, 
ou passa o chapéu (vou te contar...) 

Quando eu tava lá, ih, 
veio menino mendigando bocado 
tava sem trocado
diz que Deus dará 

E também Tião, sô 
já pôs na banca a cotação da laranja 
"vá ver se arranja, 
pede, pra anotá" 

Tem moça que se aprontou 
barraco que já desceu 
peão come a bóia fria 
ouve Dona Maria: 
"é promoção" mas deixa pra comprar depois... 

A sacoleira sabe que não cai 
dinheiro do céu 
A tarde inteira, gente se distrai, 
ou passa o chapéu (vou te contar...)

E se você for, lá 
vai ver Joana vender pé-de-moleque 
para a gurizada 
bala e picolé 

Mais um bate bola, 
Aparecida com sorriso levado, 
descompromissado 
Beto, ficou chué 

Tem nêgo ficando puto
morenas do viaduto
o Zé tá guardando a vaga: 
"hoje é hora paga" 
"vai te catá" "não vou deixar barato, não" 

A sacoleira, sabe que do céu 
dinheiro não cai 
Ô Oliveira, vê mais um pastel 
e um trago pro pai 

A sacoleira, sabe que não cai 
dinheiro na mão 
A tarde inteira, gente chega e vai 
ciranda e arrastão 

A sacoleira sabe que do céu 
dinheiro não cai... cai cai cai cai cai balão

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