Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

25 de janeiro de 2015

Bolacha completa - Matita Perê (1973)

Antônio Carlos Jobim - Matita Perê (1973)

Paulo César Pinheiro, parceiro na letra da canção Matita Perê, já comentou que:

a divisão entre o Tom da bossa-nova e o posterior, talvez se deva à leitura dele.Sua música estava agora mais voltada para a literatura. O papo era o sertão, as cores, os rios. Ele tinha conhecimento das folhas, das flores, dos pássaros. Em Matita, ele faz no piano o canto do pássaro. Entrou nesse mundo mágico dos escritores e a música se voltou para isso. Tom era um descobridor, um inventor. O sentido do seu trabalho havia mudado. Uma espécie de traço de união entre os dois trabalhos foi Matita Perê, uma história, uma espécie de filme – um curta. É uma música meio sinfônica, com um tempo muito grande para o rádio – quase dez minutos de gravação. Quando disse pra ele que ‘essa música não vai ser tocada no rádio’, ele me respondeu: ‘Mas essa música não é para agora. É para adiante. 
A internet aqui caindo, e uma certa preguiça de uns dias baianos, tudo junto instala a contraditória necessidade de deixar alguma coisa em comemoração ao aniversário do Tom e a sensação de que não tenho a energia de fazer como deveria. Chico deu a Jobim seu melhor epíteto, "maestro soberano". Escolho esse disco porque, antes de mais nada, é o meu preferido, mas não tenho dúvida que muitos poderão colocá-lo entre os melhores do Tom, os melhores da música brasileira, os melhores da música popular. Inspiradamente compostos, magnificamente arranjado, soberbamente gravado. E de lambuja tem "Águas de março", a canção em cujas águas nos banhamos e nunca mais somos os mesmos. Lendo o bem cuidado texto do professor Roberto Muggiati - posso dizer que foi lendo seu espertíssimo Rock, o grito e o mito que dei os primeiros passos no caminho de escrever sobre música popular -  fiquei sabendo do ensaio do Kiko Continentino que estou lendo enquanto produzo essa postagem [completo, aqui]. Assim, creio ser mais prudente e alinhado à minha disposição momentânea citá-lo porque me parece um texto a ser difundido e reverenciado por ser escrito com "conhecimento de causa". Ele se debruça no contexto de criação das canções e do álbum, conta a lenda do pássaro, fala dos arranjos e das gravações, esmiuça canção por canção, explora com cuidado cada lado do disco. Sua conclusão muito bem urdida merece ser citada por extenso:

Alguma coisa nesse trabalho me soa épico. Não parece a história de uma vida, apenas. Encontra-se ali a essência de um povo, de uma civilização cercada por belezasnaturais. A narrativa se desenvolve em um mundo dos sonhos, fantástico. Mas que na realidade sempre esteve ali, muito vivo. O conflito está presente. As incertezas, a insegurança, a “mania de perseguição”. Tudo traduzido em notas musicais – as mais belas o possível. A paisagem social, geográfica e comportamental é observada sob a grande angular poética de um sonhador. Um músico meio louco e misterioso, um compositor matreiro, talentoso e estudioso ao extremo, teimoso e persistente; mas, acima de tudo, com um apego incomum por sua terra, sua gente. Esse amor infindo e todo um trabalho árduo de pesquisa, construção e acabamento possibilitaram a existência de Matita Perê, assim como é: Fundamental; muito bem arquitetado. Um disco que entra pela porta da frente da história. “Uma música que não é para agora”. Mas fica para a eternidade.


No livro O Cancioneiro Jobim (citado no texto de Continentino) há um depoimento do Tom falando de suas impressões sobre o Matita: 



“É um negócio engraçado. Estou realmente entusiasmado com esse disco. É um material novo, enxuto, que revela muitas coisas que estavam dentro de mim há muito tempo. Coisas que foram amadurecidas e curtidas lá dentro, que eu queria dizer, mas não tinha os meios. É um problema conseguir botar na pauta algo que já está lá dentro da alma da gente. Como dizer, por exemplo, Matita Perê? Estou fazendo letras, coisa que nunca fiz com essa força. Fiz letras, sim, mas falando de Corcovado, etc. ‘Matita’ fala outra linguagem, não é música romântica, não tem amor nem mulher. Também foi importante fazer a letra de ‘Águas de Março’. Aí falo de um troço que estou vendo, que é mesmo, sem mentira. Claro que esta linguagem eu devo a muitas pessoas que admiro, a Guimarães Rosa, a Drummond, a Mário Palmério. Mas só se pode roubar a quem se ama”.




Desenho feito por Paulo Jobim que ilustra a capa interna do disco.

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