Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

1 de abril de 2014

Sumidouro, Olho d'água



A belíssima canção Olho d'água, gravada por Milton Nascimento em Clube da Esquina 2, é de fato comovente e a forma como alinhava os sentimentos e sensações na letra e no arranjo, pode mesmo levar o ouvinte às lágrimas. Instalando um estado ambivalente, suspenso, em que o tempo, as ações humanas, as manifestações da natureza e do espaço, tudo oscila entre o já ter se passado e o sequer acontecido, entre o encontro e a separação, a lembrança e o esquecimento, o perdido e o localizado. O jogo de duplos nos remete ainda aos cantos que embalam crianças, às valsas de ninar. Nos movemos, junto com a música, entre os lugares e estados da alma, entre as pessoas perdidas, encontradas. Tempos ainda sombrios, em que era importante enfrentar o desaparecimento das gentes, dos sonhos, da vida. A lista das cidades, como se vê pelo relato do Paulo Jobim, traz um certo jogo em que todos sugeriam mais uma peça. A grande habilidade do Ronaldo Bastos fez pequenas arrumações que dão toque extra pelas justaposições, como em "Morro Velho, Ponte Nova", "Vista Alegre, Cruz das Almas" ou "Poço Fundo, Montes Claros". E, enfim, "Sumidouro, Olho d'água". Evocar nomes, lugares, lembranças, era dizer não às ausências.

“Olho d’água” nasceu como uma valsa no violão, que meu pai tinha gravado só com cordas lá nos Estados Unidos e eu nem participei, e o Milton já gostava e ela sempre teve um princípio de letra assim. E nessa época o Ronaldo completou uma letra e a gente botou o nome de tudo quanto era cidade possível, então tem as cidades misturadas de Minas com o Rio de Janeiro. Tem um pedaço dela que é só: “Maravilha… não sei o que…”
Então uma salada… Guanabara… Uma salada de cidades ali que todo mundo ia dando palpites: “Bota mais uma!” (RISOS) Depoimento de Paulo Jobim ao Museu Clube da Esquina
[completo, aqui]




Olho d'água (Paulo Jobim/Ronaldo Bastos)


E já passou, não quer passar
E já choveu, não quer chegar
E me lembrou qualquer lugar
E me deixou, não sei que lá


Não quer chegar e já passou
E quer ficar e nem ligou
E me deixou qualquer lugar
Desatinou, caiu no mar


Caiu no mar, 

Nena
Pipo, cadê você?
Dora, cadê você?
Pablo, Lilia, cadê você?


Beira Rio
Duas Barras
Morro Velho
Ponte Nova
Maravilha
Buracada
Sumidouro
Olho-D'Água


Não quer chegar e já passou
E quer ficar e nem ligou
E me deixou qualquer lugar
Desatinou, caiu no mar


Caiu no mar, 

Pedro
Chico, cadê você?
Lino, cadê você?
Zino, Zeca, cadê você?


Vista Alegre
Cruz das Almas
Maroleiro
Asa Branca
Bom Sossego
Santo Amaro
Poço Fundo
Montes Claros
Cachoeira
Mambucaba
Porto Novo
Água Fria
Andorinha
Guanabara
Sumidouro
Olho-D'Água

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