Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

28 de abril de 2014

Não vai ter Belo Horizonte

Enquanto a copa se aproxima, mais e mais reflexões apresentam um quadro nada animador - e também nada surpreendente - sobre as consequências de sua realização na sociedade brasileira. Também não estou nada animado e nada surpreso. Mas mesmo quando a gente pensa que já viu o bastante, que já se empanturrou com os absurdos que desfilaram pelos jornais, pela rede, pela cidade em que a gente vive e caminha, podem ter certeza que ainda haverá o que ver pra passar um pouco mais de raiva. Passo quase todos os dias pela Av. Antônio Carlos e vejo o tal BRT-Move, arremedo inconcluso e condenado à obsolescência precoce e premeditada, malfadado substituto do prometido metrô que já se converteu de promessa de campanha em lenda, enquanto o belorizontino agoniza lentamente no meio do trânsito e da falta crônica de mobilidade para todos. Vejo hotéis que se anunciaram como feito arquitetônico, ainda nas estruturas, financiados com empréstimos públicos a perder de vista, que nem por milagre ficarão prontos, enquanto levas de pessoas são desalojadas do que nem aos olhos de Mr. Magoo poderia ser tomado por uma moradia decente, mas que é tudo o que tem. Vejo uma estrutura hospitalar, pública e privada, em petição de miséria para atender quem já está aqui. Poderia continuar nessa toada mas ainda tem outro assunto pra postagem. Apenas resumindo, vejo uma cidade que em absolutamente nada melhorou e que é anunciada como que embrulhada numa fina seda pra presente de grego, para nós cidadão daqui, e até mesmo para os tais turistas, clientes, o que for, que certamente irão ver, por mais maquiagem que se passe, que a fisionomia de BH é diferente daquela mostrada nos comerciais de 30 segundos que passam na TV. 
 ***
Como membro do Centro de Convergência de Novas Mídias (CCNM) da UFMG, integro um grupo de pesquisadores que atualmente investiga entre outras coisas transformações no espaço urbano relacionadas a megaeventos como a Copa do Mundo, e de que forma elas estão articuladas por e nas mídias, como as pessoas interpretam, discutem e participam dessas mudanças na cidade, nos jornais, nas redes sociais. Estávamos há pouco numa discussão que começou tratando dos grupos escolhidos para tocar na Fan Fast da Fifa [sim, isso aqui ainda é um blog sobre música popular rsrsrs] em Recife [aqui]. A discussão que se seguiu vale uma postagem própria, que poderá vir em breve. Agora quero apenas mencionar que no decorrer da conversa acabei querendo apurar o que e quem tocaria em Belo Horizonte. Na busca por respostas fui à página oficial turística da cidade, de responsabilidade do órgão municipal dedicado ao turismo, a Belotur. Não tenho agora o tempo e paciência necessários para fazer um exame profundo de seu conjunto, para tentar entender que espécie de "produto" os responsáveis pensam que BH é, digo apenas que é diferente da cidade em que vivo. Fui direto ver o que tinha a respeito de música, sem encontrar o que procurava, mas sempre atento pois a pesquisa tem dessas coisas, o bom investigador pode muito bem atirar no que viu e acertar no que não viu. E assim cheguei a essa coleção inigualável de pérolas sobre a história da música popular aqui: Belo Horizonte apresenta miscelânea em seu cenário musical. Ainda estou estarrecido. Nem mesmo sob o ponto de vista de uma narrativa comercial, de guia turístico, sintética, superficial e genérica como devem mandar os manuais, esse texto se sustentaria. Será mesmo que a Belotur não tem em seus quadros gente capaz de fazer algo no mínimo sem equívocos primários e com uma redação razoável. Ou não poderia pagar um profissional de gabarito nem que fosse para "pintar melhor a fachada"? É difícil crer. De fato assusta a completa falta de capacidade de uma administração de sequer prezar pela mínima qualidade numa página oficial voltada para o turismo na cidade, num ano de copa, com toda a parafernália discursiva que se monta em torno da exploração comercial desse evento. Vamos a algumas - deixo o resto pra quem tiver muito saco de ler asneira - pérolas. Cito e comento em negrito:

"O Clube da Esquina foi o precursor do movimento da música em BH, na década de 60. Na época, a sua influência atingiu não só Belo Horizonte e Minas, como o Brasil e o mundo. Cantores consagrados como Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta foram exaltados com o movimento revolucionário, regionalista e bem elaborado. Na obra de Beto Guedes notam-se características rurais e na produção de Lô Borges, o barroco mineiro. Já as letras de Milton Nascimento sempre tiveram um toque da música contemporânea com características de Minas." Adoro Toninho cantando mas certamente sua consagração é como instrumentista; classificar o Clube como regionalista é mais que descabido; a caracterização das obras de Lô e Beto é, para ser gentil, imprecisa; Milton, quando se arrisca, vai bem nas letras mas não acho que era por aí... o texto não acerta nem mesmo como senso comum.

"Nos anos 70 e 80, algumas bandas, como Sagrado Coração da Terra, de Marcus Viana e 14 Bis de Flavio Venturini já demonstravam a diversidade musical da capital mineira.  Tuatha de Danann se destacou em todo o mundo no estilo Folk Metal. Fernando Brant, Wagner Tiso e Vander Lee trouxeram à tona a MPB para os mineiros." Vai ficando até difícil comentar... Será que quem escreveu isso sabe o que é diversidade musical? Tem noção de que a cidade foi fundada ainda no século XIX? Tem ideia do que é MPB? Sabe ao menos que Vander Lee emergiu num momento diferente do de Brant e Wagner Tiso, dois músicos que estiveram entre os principais protagonistas da geração que elaborou a MPB? Aliás - por favor, nada contra o cara, ok - porque justo o Vander Lee nessa frase? 
"Já na década de 90, algumas bandas de rock também surgiram como uma reação às ideias plantadas pelo Clube da Esquina: Jota Quest, Pato Fu, Tianastácia e Skank, ficaram conhecidos em todo o país e começaram sua trajetória de milhões de cópias vendidas e shows históricos." Hein, como é que é? Reação? Não dá pra acreditar... uma leitura completamente equivocada do surgimento dessas bandas todas. Fora a tremenda bola fora de pensar que de alguma forma o Clube da Esquina se opõe ao rock. Como disse o Jim Capaldi ante o estranhamento dos jornalistas brasileiros quando disse a eles que a novidade do rock no Brasil era Milton Nascimento, quem escreveu isso aí não sabe nada de rock. O máximo que daria pra falar é que muitos dos componentes dessas bandas não se identificam nem se inspiram em Clube da Esquina. E isso teria que ser contrabalanceado pelo fato de alguns gostarem e até procurarem - ainda que com resultado duvidoso - se aproximar de músicos como o Milton e o Lô Borges. 

O texto continua desfiando uma combinação de ignorância e lugares comuns que dá realmente nos nervos. Destaca-se coisas que só uma meia dúzia de gatos pingados conhece -não é por isso que são boas ou ruins, diga-se de passagem - junto com outras figurinhas manjadas, deixando entrever que basicamente quem escreveu misturou aquilo que gosta com aquilo que não gosta nem entende mas está "na lista" do que não poderia faltar e aí fez a tal miscelânea do título. Não vou aqui fazer uma exaustiva lista de ausentes indispensáveis, simplesmente não é por aí [mas claro que quem quiser pode deixar aqui nos comentários do blog as suas indicações, com ou sem justificativa]. Como historiador digo basicamente que foi feito um corte cronológico pouco criterioso e nada representativo da história da música no tempo de existência da cidade. Como compositor que circula de alguma forma pela cena contemporânea, há mais de 10 anos, vejo o apagamento injustificado de um monte de coisas. Fica, por exemplo, subentendido que não se fez MPB dos anos 90 em diante, ou, na melhor das hipóteses, depois do Vander Lee. De novo, nada contra o cara, tá bom? Contra quem escreveu esse texto e quem mandou escrever, tenho. Deixo enfim meu protesto porque é simplesmente inaceitável ver o cenário musical de Belo Horizonte tratado dessa maneira porca.
***
Nossa cidade é outra, a que vemos e ouvimos a despeito de tudo isso. Na copa, já sabemos, não vai ter Belo Horizonte.

4 comentários:

  1. Deviam transformar esse troço em samba-enredo e chamar de "O Samba do Belotudo [mistura de pelotudo e Belotur] Doido"...

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    1. Com certeza, Samuel. Seu comentário me fez lembrar disso aqui: http://massacriticampb.blogspot.com.br/2012/02/o-samba-do-crioulo-doido-e-o-enredo-do.html

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  2. Quem escreveu aquele troço todo está mais perdido do que cego em tiroteio.

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  3. Só faltou complementar o texto com as palavras hordas reacionárias e direitistas reacionários.Nunca li tanta merda na minha vida.

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