Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

20 de novembro de 2013

Um Brasil bem perto daqui

Parei tudo aqui e estou ouvindo, com grande interesse, o LP Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara (1976) de Taiguara, só agora relançado no Brasil em CD [uma boa reportagem sobre o disco, aqui]. O som é exuberante, elaborado, e as letras contundentes, cinematográficas, brilhantes. Um disco denso, desafiador, que burlou a censura mas acabou sendo recolhido poucos dias depois de seu lançamento. Retrato vivo de seu tempo e simultaneamente uma leitura da história do Brasil e do continente americano. Feito no emblemático ano de 1976, que já abordei em outras postagens do blog. Além das 13 faixas compostas por Taiguara, figura uma versão solitária, e mais do que significativa, de Três Pontas (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos). Não é pura coincidência o disco ter sido gravado na EMI-Odeon, casa que abrigou boa parte daquela turma simbolicamente reunida numa certa esquina. O diálogo com o Clube e com as pontes panamericanas propostas por Bituca e cia. é mais do que audível, e reverbera também pela atuação de seus membros ilustres como Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornellas e Novelli. Entre outras feras presentes, incluindo Hermeto Pascoal (responsável por alguns dos arranjos), Jacques Morelembaum, Paulo Braga...
Vale conferir ainda o site oficial do CD, bem cuidado e fazendo jus à obra que motivou sua existência. Destaque para as seções "letras" (traz fichas técnicas faixa a faixa), "entrevistas", "depoimentos" e "a censura". Mas todo o sítio vale a visita. E agora vamos ouvir que é o que mais interessa:

P.S.
Um dos melhores atrativos de manter o blog é a possibilidade de ir incorporando novos elementos e aperfeiçoando as postagens. Não é que hoje (28/12/2013) meu parceiro Pablo Castro, habitual colaborador aqui, resolver escrever algumas linhas sobre o disco. Também vale a leitura o certeiro texto do excelente cantautor Makely Ka, aqui.

Por Pablo Castro:
Acabo de escutar a obra-prima de Taiguara , seu disco censurado Imyra, Tayra, Ipy , Taiguara, de 76, ano em que nasci. Na verdade, eu já era familiar com seu disco Piano e Viola, de 72, que constava na coleção de vinis de meu pai. Eu gostava daquele disco, reconhecia o refinamento de suas melodias e seu domínio expressivo do piano, embora considerasse que ele sucumbia a algumas soluções excessivamente sentimentais e torrenciais em alguns momentos. Impressão parecida tive outro dia a escutar um LP anterior, de 69.

Mas Imyra,Tayra, Ipy, Taiguara é arrebatador. Essas torrentes emocionais que sempre acompanharam suas músicas dessa vez são totalmente naturais e a orquestração, simplesmente fantástica, épica e expressiva, está entre as mais inspiradas de toda a produção fonográfica brasileira. As canções são nada menos que estupendas, começando com um refrão que diz : " eles querem lotar o maracanã" , aliando as assertivas pianísticas de Taiguara com um nível de orquestração que beira o sentimento sinfônico. Esse trangredir de fronteiras se vale também de experimentações tecnológica, com o uso despudorado de reverbers, ecos, truques analógicos, e também da retórica intrumental de nomes como Hermeto Pascoal , Toninho Horta , Nivaldo Ornellas, Wagner Tiso , Jacques Morelembaum, Zé Eduardo Nazário, Novelli , Paulo Braga, Lúcia Morelembaum . Esse disco realmente é um Rio Amazonas de expressividade grandiosa , o que também transparece no canto arrojado do cantautor, se valendo de notas longas, falsetes, sempre com melodias rigorosas em suas redondezas. A harmonia transparece um diálogo com Milton Nascimento, para cuja canção Três Pontas ( em parceria com Ronaldo Bastos ) ele apresenta um arranjo espetacular, que chega a superar o original.

As letras falam do auto-exílio ao pé da letra e daquele auto imposto pela censura no Brasil. A sua atualidade é tocante. Que justamente esse disco tenha sido totalmente censurado é mais um testemunho de um crime da ditadura militar contra a cultura brasileira. Que ele e seu autor ainda não tenham sido redescobertos e consagrados pela grandiosidade de sua obra atesta a nossa empobrecida relação com a memória musical de um país que é um país de canções : aquele Brasil idílico de que teimamos não conseguirmos nos desvencilhar.


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