Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

1 de maio de 2013

Para não esquecer: o Show 1° de Maio e o atentado do Riocentro


Ver esse pequeno recorte disparou a vontade incontrolável de fazer uma postagem sobre o episódio do Atentado do Riocentro em 30/04/1981, durante a realização da 3a. edição do Show 1° de Maio. Encontrei algum material relevante e vou reuni-lo aqui:

1) Do blog Virtuália, por Jeocaz Lee-Meddi (texto completo, aqui)
"As comemorações do 1° de Maio, proibidas desde 1968, eclodiram por todo o país a partir de 1979, sendo pontuadas com grandes espetáculos reunindo os maiores nomes da Música Popular Brasileira da época. Em 1981, na noite de 30 de abril, um desses grandes shows realizava-se nos palcos do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando uma bomba explodiu no estacionamento de carros local. Meia hora depois, uma segunda bomba explodia na casa de força quando a cantora Elba Ramalho fazia a sua apresentação. Além de ícones da MPB, como Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha, Zizi Possi e muitos outros, uma platéia de vinte mil pessoas assistia ao espetáculo. A bomba, explodida antes da hora, matou o sargento Guilherme Pereira do Rosário e feriu gravemente o capitão Wilson Machado, portadores dos explosivos. A fatalidade que matou os próprios algozes, evitou que se fizesse mártires dentro da MPB, desmascarando os serviços de inteligência da ditadura militar, encerrando de vez a fase das bombas sobre a abertura. A empreitada terrorista entrou para a história como o Atentado do Riocentro, sem que os seus mentores e envolvidos jamais fossem punidos."

2) Depoimento de Adriano Pilatti, via facebook 
"Há 32 anos fui - como muitos amigos e outras 20 mil pessoas - ao show abaixo no Riocentro, que reunia o melhor da música brasileira, de Gonzagão a Chico, de Clara Nunes a Ney e João Nogueira, e cuja renda era destinada à reorganização autônoma dos trabalhadores. Felizmente voltei vivo, porque naquela noite a canalha sifu. Como todos, sei os nomes de dois dos responsáveis, o que morreu, e o que depois virou professor de história no ensino castrense; sei o nome do comandante da PM que não atendeu a solicitação de policiamento do local pelos organizadores, o mesmo nome do assassino de Carlos Lamarca (coincidentemente, placas de sinalização nas imediações foram pichadas com a sigla VPR, na tentativa de incriminar a organização que nem existia mais); sei o nome de quem chefiava a administração do local e tem de responder pelo fato de as saídas de emergência terem sido trancadas. Sei que uma bomba explodiu sob o palco sem provocar o efeito pretendido, outra falhou tb na Casa de Força, outra explodiu dentro do puma e uma quarta foi fotografada no porta-malas do mesmo. Sei que faltam nomes e fatos nessa história, sei que os crimes contra a humanidade tentados naquela noite foram posteriores à lei de anistia e são imprescritíveis, sei que se passaram 32 anos e ainda não sei quem mandou exterminar 20 mil vidas, incluindo a minha, a única que tenho e no curso da qual ainda espero ver todos identificados e os vivos conduzidos à barra dos tribunais. Não se trata de vingança, pois a maior vingança é estar vivo e bem e poder escrever isto. O que falta ainda é verdade, é justiça."
 3) Do blog Nem às paredes confesso, por Paulo Gonçalo dos Santos(texto completo aqui)
"Estes shows estão cravados na memória de todos que amam a MPB e sobretudo amam a liberdade, dois destes shows foram registrados em audio e lançados no formato “Long Play” (LP) à época e haviam virado nos últimos anos item de colecionadores e frequentadores de sebos Brasil afora. (...) Agora já é possivel ter em casa essas relíquias da MPB graças a reedição em CD pelo selo DISCOBERTAS do grande pesquisador carioca Marcelo Froes, que caprichou na reedição dos dois show neste formato, estão lá parte dos shows de 1980 e 1981, com encarte caprichado cheio dos desenhos criados por Ziraldo para o pôster de divulgação (...)"
Para ouvir uma amostra do áudio e ler sobre os CDs, aqui

Por fim uma lista de vídeos com amostras de várias edições do Show 1° de Maio, aqui
  

Um comentário:

  1. Luiz, minha mãe tem uma história ligada ao Riocentro. Ela foi professora por muitos anos do Colégio Militar de Brasília. Certa feita, chegou um novo coordenador para o depto. dela, língua portuguesa, um tal de Coronel Machado (ou Ten.Cel, não me lembro). Não é que era o então capitão que levava a bomba que explodiu? Um colega da minha mãe reconheceu o cara e um dia a história vazou pra imprensa de Brasília (possivelmente algum professor ou funcionário “civil”). Como já eram tempos pós-ditadura ferveu de jornalista no colégio tentando falar com o dito cujo que precisou ser ir pra moita pra coisa esfriar, provavelmente transferido.

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