Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

9 de maio de 2013

As 30 mais geniais lados B de Paul McCartney - Parte IV

Lista do Paul (16a.): o contraponto perfeito a Tug of War é Pipes Of Peace, que, inexplicavelmente , nunca entra nos repertórios de seus shows ( em detrimento de bobagens como Calico Skies, Dance Tonight, Mrs. Vanderbuilt, etc) , uma vez que é uma das mais bonitas e inspiradas peças de seu cancioneiro - apesar de o disco que ela entitulou seja provavelmente seu pior, de 1983.

De novo vemos Paul em sua veia doce, discorrendo sobre as virtudes do amor e as vicissitudes da guerra, por meio de metáforas musicais; assim como em Tug of War, que solicitava a batida de outros tambores que não os militares, aqui ele fala nas músicas de alegria, nas flautas da paz*, na igualdade das pessoas, que "um e um é tudo que buscamos ser ". Dessa maneira, é um segundo eco de Imagine que Paul sentiu ser seu dever como compositor refletir. Enquanto é verdade que Paul não chegue às raias da subversão como " Imagine no religions, no possessions, no greed, no hunger" o fato é que tanto Tug of War quanto Pipes Of Peace indicam a mesma direção, e é bom ver McCartney cantando algo maior do que uma pequena narrativa de personagens imaginários, uma música mais universal.

Sobre a anatomia musical dessa canção, Paul usa um gambito muito interessante tanto na forma quanto na harmonia. Uma introdução muito melodiosa que pouquíssimos compositores deixariam de usar como base das estrofes da música, em Mi Maior, dá lugar, subitamente, a Dó Maior, que revela ser o tom principal da música, para as estrofes seguintes. Nessa passagem, há uma modulação rítimica interessante: o que era o tempo de semínimas na introdução de repente se torna, em batidas mais stacatto e em estilo reggae, o contratempo da próxima sessão da música. A quadratura se compõe de clássicos 16 compassos por estrofe, enquanto num intermezzo instrumental, baseado numa estilização da estrofe, temos 6 compassos. Melodia, como de costume, extremamente expressiva e consequente, entre saltos precisos e graus conjuntos, revestida de um arranjo pop, com detalhismo de timbres, conduzidos pelo piano de Paul, e que a certa altura inclue uma tabla indiana, além dos indefectíveis backing vocals. No epílogo, temos a volta do prólogo inspirado, e o recado está muito bem dado.

Pipes of Peace

I light a candle to our love
In love our problems disappear
But all in all we soon discover
That one and one is all we long to hear

All 'round the world
Little children being born to the world
Got to give them all we can ‘til the war is won
Then will the work be done

Help them to learn songs of joy instead of
Burn baby burn, let us show them how to play
The pipes of peace, play the pipes of peace

Help me to learn songs of joy instead of
Burn baby burn, won't you show me how to play
The pipes of peace, play the pipes of peace

What do you say? Will the human race
be run in a day? Or will someone save
This planet we're playing on?
Is it the only one? (What are we going to do?)

Help them to see that the people here
Are like you and me, let us show them how to play
The pipes of peace, the pipes of peace

I light a candle to our love
In love our problems disappear
But all in all we soon discover
That one and one is all we long to hear



*Há um duplo sentido na tradução de "pipe", que também pode ser cachimbo, e em português a expressão 'cachimbo da paz' talvez seja mais usada, mas no caso trata-se mesmo de flautas que remetem à sonoridade das bandas marciais. O vídeo clip retrata um fato da 1a. Guerra Mundial. "No Natal de 1914 tropas britânicas e alemãs decidiram decretar trégua por conta própria em pleno campo de batalha, na França. Durante a véspera e o dia de Natal eles não combateram. Além disso celebraram a festa em conjunto bebendo, fumando, trocando presentes e até jogando futebol" (da postagem de videomakersp no You Tube) (n.e.)

Paul sempre se ressentiu da perda do parceiro John, por vários motivos afetivos mas também artísticos, já que Lennon salgava o doce do companheiro. Esse equilíbrio foi decisivo para o alcance artístico dos Beatles, pois a universalidade de sua obra se baseia muito na completude dos opostos. A Décima-Sétima da lista do Paul é a interessante Don´t Be Careless Love, em parceria com Elvis Costello [que assina Declan MacManus, n.e.]. Paul encontrou nessa época em Costello um contraponto semelhante ao que John lhe proporcionava, uma certa acidez e incisividade que contrastava belamente com a doçura de Paul. Juntos eles compuseram 4 músicas do disco Flowers in the Dirt , e o próprio nome do disco sem dúvida faz referência a esse contraste*.

Há ótimas canções dessa parceria no disco como o hit beatley My Brave Face, You Want Her Too ( que parece tirada do próprio disco Help, com Costello cantando os contrapontos como se fosse John), mas a mais inusitada é essa canção cujo enredo me lembra muito "Não Sonho Mais " , de Chico Buarque. O narrador sonha que algo ruim pode ter acontecido à sua amada enquanto a espera em casa, e vai descrevendo as possíveis terríveis consequências de sua breve separação. Depois dessas ameaças imaginárias, ela volta pra casa, e o narrador culpa a mente da sua amada como responsável por todos esses horrendos devaneios.

A estrofe , em Ré Maior, cadencia para seu segundo grau, Mi Menor, em melodia primorosa, para depois passar pelo acorde surpreendente Dó Sustenido Menor ( ausente do campo de Ré Maior) para o refrão , descendo a Dó com Sétima Maior , Si Menor ( já de volta ao campo de Ré), e desembocando em Fá Sustenido Menor, terceiro grau de Ré. Muito interessante essa passagem, que é também a base para o B, em que Paul canta de voz mais plena, em contraposição às estrofes em quase falsete .

O arranjo, enquanto muito bem sucedido no acompanhamento puramente vocal na introdução, peca por diluir o sentimento da canção em teclados de propaganda de sabonete e bateria cool ; muito despropositada essa solução para um tema tão ardente.
Achei, aliás, uma versão demo de Paul e Elvis cantando que acho bem mais expressiva. Mas a canção, em si, é estraordinária !

Burn the midnight lamp
Down until the dawn,
I'll keep watch until I'm sure your coming home.
Shadows play and flicker on the bedroom wall
They turn into a bad dream overnight,
Something could be terribly wrong.
Don't be careless love,
Don't be careless love,
Don't be, don't be careless.

In my dream you're running nowhere
Every step you've taken turns to glue.
Walking down a spiral staircase
Falling through, falling through,
Don't be careless love,
Be careless love.

The lamp burns down and out
I'm getting pretty tired of this,
I feel so bad something might be going amiss,
I won't be there so look out for yourself
You're getting in deep whatever you do,
Don't let me go back to sleep,
Don't be careless love,
Don't be careless love,
Don't be, don't be careless.

Saw your face in the morning paper,
Saw your body rolled up in a rug
Chopped up into two little pieces
By some thug,
Don't be careless love,
Be careless love.

But in the morning light
When I wake up again
You're by my side and that's the way it's always been,
But in the dark your mind plays funny tricks on you,
Your mind plays funny tricks on you,
Your mind plays funny tricks on you,
Don't be careless love.



* Paul alcança seu pico criativo quando tem a seu lado gente que possa fazer esse tipo de contraponto. Talvez até os creditos devessem ser mais generosos com Costello pois se trata de uma participação que dá o tom do disco como um todo. Para ver uma entrevista em que Paul comenta a parceria: parte 1 e parte 2.

A próxima (18a.) da lista das obscuras de Paul McCartney é Treat her Gently /Lonely Old People, singela balada saída no disco Venus and Mars (1975), que mais uma vez, é uma espécie de "medley orgânico", como a primeira música na verdade volta mais tarde, depois de dar lugar à segunda. Vemos aqui Paul retomando, com mais compaixão e simpatia, o tema de Eleanor Rigby, sobre as pessoas velhas e solitárias. Essa é uma daquelas que conheci mais tarde, e, à primeira audição, não me chamou muito a atenção, mas foi crescendo no meu critério devido, mais uma vez, à incrível naturalidade melódica que é característica de Paul. Pela lentidão afetiva da melodia e do canto, o uso de versos muito simples e elementares, e , por isso mesmo, apropriados para um sem-número de situações, conclui-se que essa compaixão é genuína . Muito tênue e linha entre a compaixão e a pieguice, mas Paul aqui mais uma vez sabe tecer a melodia e a letra de forma a potencializar os sentidos, sem exagerá-los nem caricaturá-los .

A primeira música, Treat Her Gently, no mesmo nível de simplicidade e compaixão , é em 4/4 , em Lá Maior, mas logo transpondo-se para Ré Maior, em cujo tom Lonely Old People ( mais longa) gravita, em sua lenta sequência de baixos descendentes , de Ré , passando por Si menor, e estabilizando em Sol, seu subdominante. Depois temos a cadência também clássica : G7M / Gm6 / F#m / Bm / G / % / D / % , seguida pela ainda mais clássica inclinação ao relativo Si Menor : A / A#o / Bm / E7 , o que nos permite falar : Paul tira leite de pedra ! Quero dizer, depois de Sgt Pepper´s, Paul não mais evoluiu seu vocabulário harmônico , por assim dizer, para além do que tinha feito até ali. É até uma pena que ele não tenha conhecido ou atentado para a Música Brasileira, com seu léxico harmônico muito mais expandido. Mas tal era sua habilidade, que conseguiu ainda surpreender muitos ouvintes com esse limitado leque de acordes, mas conduzidos muito habilmente, sempre usando modulações inusitadas para renovar o interesse.

Treat her gently

Treat her kind
She doesn't even know her own mind

Treat her simply
Take it slow
Make it easy
and let her know
You'll never find another way

Here we sit
Two lonely old people
Eaking our lives away


Bit by bit
Two lonely old people
Keeping the time of day

Here we sit
Out of breath
And nobody asked us to play

- Old People's Home for the day -
Nobody asked us to play

Treat her gently
Treat her kind
She doesn't even know her own mind

Treat her simply
Make it slow
Take it easy
and let her know
You'll never find another way

Here we sit
Two lonely old people etc., etc…..
…….Nobody asked us to play.



A próxima (19a.) da lista do Paul é a enebriante Long Haired Lady, do disco Ram ( o mais Beatle de Paul solo), de 1971, dedicada a e composta com Linda, que , mais uma vez, mostra a sutileza de seu compositor para com a forma, nessa canção que é um misto de influências e momentos diferentes, quase como outro medley. O início da música é um dos mais marcantes, de melodia verticalmente ascendente, com as relutâncias repetidas de "well, well, well, well, well ... " , referência inequívoca à faixa Well, Well, Well de John Lennon. A resposta de garota colegial americana é um barato, que Linda canta com a cobrança virgem de moça que quer casar :" Do You love me like you know you ought to do ?" " Or is this the only thing you want me for ? ", seguida de uma explicação reconfortante do nosso herói : "Well I´ve been meaning to talk to you about it for some time ... sweet little lass you know, my long haired lady " .

Segue-se uma segunda parte mais ritmada e sincopada, em Si Bemol, relativo de Sol Menor, enquanto a primeira parte, embora comece em Mi Menor, é indubitavelmente em seu relativo Sol Maior. Essa parte é também leve, até jocosa, mas é seguida de uma misteriosa melodia para a ponte: Long Haired .... Lady , cuja harmonia flutua da sexta menor Mi Bemol com Sétima Maior , de volta a Sol.

A terceira parte lembra ninguém menos que George Harrison, com seu envolvente e longo chorus em baixo pedal de Sol ( Isn´t it a Pity), com a enigmática frase: love is long. Depois de um pequeno retorno ao marcante inícios, voltamos a flutuar eternamente nesse mantra final, que , supostamente, reflete a consumação mágica dessa amor hipnótico pela moça de cabelos longos.

Uma das músicas mais inventivas de McCartney, com extraordinário arranjo, que contém delicadas passagens de guitarras, metais em abundância, mais uma indefectível linha de baixo e um violão muito bem tocado por Paul.




Well well well well well
Do you love me like you know you ought to do?
Well well well well well
Or is this the only thing you want me for?

Well, I've been meaning to talk to you about it for sometime,
Sweet little lass you know, my long haired lady.


Who's the lady that makes that brief occasional laughter?
She's the lady who wears those flashing eyes.
Who'll be taking her home when all the dancing is over?
I'm the lucky man she will hypnotize.

Long haired lady.


Bees are buzzing about my sweet delectable lady,
Birds are humming about their big surprise.
Who's your favourite person, dear phenomenal lady?
I belong to the girl with the flashing eyes.

Long haired lady.


My love is long, love is long, my love is long
I'll sing your song, love is long, my love is long
And when you're young, love is long, your love is long
When your lips lead into song, love is long, your love is long.



***
N.E. : Ainda sob impacto do show magistral de McCartney no Mineirão em 04/05/13, em que ele sem saber deu mais um ponto na costura dos tecidos urbanos, históricos e musicais que unem de forma misteriosa Belo Horizonte a Liverpool, vou incluir aqui como "bonus  track" a versão ao vivo, em estréia mundial, de Being for the benefit of Mr.Kite. Essa foi talvez a escolha mais surpreendente em todo o repertório do show, pois além de não ser muito conhecida do público mais amplo, é absolutamente identificada a John Lennon, seu autor e intérprete. Aliás Lennon praticamente transcreveu a letra de um cartaz de circo encontrado em uma loja de antiguidades, e a partir da imagem que foi construindo instigou George Martin a realizar um dos mais bem sacados arranjos da história da música popular, simplesmente lhe dizendo que queria "sentir o cheiro do picadeiro". Um dos fatores que pode ter motivado Paul a escolhê-la é a linha de baixo, o grande fio condutor por trás da canção, como muito bem me apontaram o Pablo e também o Vlad Magalhães. Para não deixar na mão quem se interessa por comentários musicológicos mais detidos, deixo o link para as observações de Alan Pollack sobre a canção (aqui).


  

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