Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

28 de abril de 2013

As 30 mais geniais lados B de Paul McCartney - Parte I

Mais uma vez o blog recebe com especial satisfação as preciosas considerações de meu parceiro Pablo Castro sobre o cancioneiro popular. Dessa vez, o objeto de sua criteriosa seleção e investigação é nada menos que Paul McCartney. Vou editá-las de 5 em 5 como fiz com a lista do Clube, fazendo pequenos ajustes na digitação e eventuais comentários ou indicações que virão entre [ ] acrescidas da sigla n.e. [nota do editor]. Não serão muitas, pois os leitores mais uma vez receberão textos primorosos. Sem mais, à lista...

Depois da repercussão positiva da minha lista das 30 mais geniais do Clube da Esquina (veja aqui: http://massacriticampb.blogspot.com.br/2012/12/as-30-mais-geniais-do-clube-da-esquina.html ) decidi , por ocasião da visita a BH do grande Paul McCartney, um dos maiores compositores populares vivos no planeta, fazer uma lista das 30 canções desconhecidas mais geniais do Beatle Paul, a maioria de sua extensa carreira solo. Tal a variedade estilística do cancionista britânico que várias pérolas de sua incrível carreira ficaram escondidas, e não tenham muita esperança de que ele vá tocar alguma delas nesse concerto.

De qualquer maneira, vale como aplicação para um público menos especializado, vamos dizer assim.

Começo com a balada melancólica Junk, cuja letra versa sobre um tema inusitado: a compaixão pelos objetos velhos e esquecidos, vendidos num antiquário. Com uma melodia altamente consequente, feita de cuidadosos graus conjuntos e ocasionais saltos, vemos as estrofes em Fá sustenido menor, desembocando no seu irmão relativo e mais otimista Lá maior, no refrão. Lançada logo no seu primeiro disco solo, denominado apenas McCartney ( 1970 ) em que toca e canta todos os instrumentos, e talvez influenciado pelas canções de Burt Bacharah para o clássico Butch Cassidy & Sundance Kid, Paul mostra mais uma vez sua maestria para baladas meio tristes meio irônicas, que já havia experimentado durante a carreira com os Beatles.

Motor Cars, Handle Bars
Bicycles for Two
Broken Hearted Jubilee
Parachutes, Army Boots
Sleeping Bags for Two
Sentimental Jamboree

Buy Buy
Says the Sign in the Shop Window
Why Why
Says the Junk in the Yard

Candlesticks, Building Bricks
Something Old and New
Memories for You and Me

Buy...



Como segunda da minha lista das melhores lados Bs do Paul McCartney, incluo agora The Pound Is Sinking, curiosa canção sobre instabilidade monetária e emocional . Muito inusitado esse tema para uma canção, que também é marcante por uma terceira parte em outra levada rítmica, em que a narrativa sobre as instabilidades das moedas nacionais é entrecortada por um desabafo amoroso aparentemente sem muito nexo com o resto da letra. Com uma introdução em Fá Menor, a mesma melodia é cantada em seguida na estrofe mais consistente em seu relativo Lá Bemol Maior, com uma pequena ponte com seu acorde mixolídio Sol Bemol, seguida de um primeiro B em que a narrativa paternal de um banqueiro britânico sisudo condena a incapacidade do protagonista seguir os passos acertados de seu pai.
Voltando à estrofe, com mais alguns ditados do noticiário econômico e alguns dos truísmos da ideologia capitalista, e por fim a explosão da referida terceira parte. No fim, repete-se a introdução, que na verdade é uma estrofe diferida.

Uma forma bastante irregular e um tema realmente surpreendente para uma canção pop, a força da canção vem justamente da contraposição contrastante entre essas diferentes sessões , e , claro, a maestria vocal de Paul, que encarna três personagens na mesma letra . Do LP Tug Of War, de 1982, The Pound Is Sinking é mais uma canção com essa forma bricolada, assim como músicas tipo : You Never Give Me Money, Uncle Albert/Admiral Halsey, Band On The Run, Rock Show e outras. 


The pound is sinking
The peso's falling
The lira's reeling
And feeling quite appalling

The mark is holding
The franc is fading
The drachma's very weak
But everyone's still trading

The market's bottom
Has fallen right out
And only the strong are survivors

Well I fear, my dear
That it's eminently clear
That you can't see the trees
For the forest
Your father was an
Extraordinary man
But you don't seem to have inherited
Many of his mannerisms
Oh, any of his mannerisms

The dollar's moving
The rouble's rising
The yen is keeping up
Which hardly seems surprising

The market's bottom
Has fallen right out
And only the stout are survivors

Hear me lover
I can't be held responsible now
For something that didn't happen
I knew you for a minute
Oh, it didn't happen
Only for a minute
Your heart just wasn't in it any more

The pound is sinking
The peso's failing
The lira's reeling,
And feeling quite appalling





A terceira da lista do Paul é You Gave Me The Answer de 1975 (álbum Venus and Mars, com Wings), esse foxtrot  anos 1930, pastiche perfeito típico das estilizações camaleônicas de Sir Paul; ao piano virtuoso e característico o nosso herói ainda manda aquele canto parecido com um outro cantor dos anos 1930: não ele próprio. Essa sua faceta já havia enriquecido o repertório dos Beatles e cumprido um papel muito especial na relação dos mesmos com a música jovem dos anos 1960, proporcionando uma ponte intergeracional num contexto de aguda tensão entre os nascidos antes da guerra e seus filhos, jovens da contracultura emergente e afluente e sujeitos de uma revolução cultural e comportamental . Não apenas os Beatles acenavam para a música "antiga" com propriedade musical ; faziam-no deliberada e genuinamente, com alta qualidade composicional e até a ironia presente em clássicos com When I´m Sixty Four, Honey Pie e Your Mother Should Know, [todas mccartneyanas, n.e.] não é debochada - há um gosto . Lennon e Harrison não tinham essa inclinação. Até porque, como diz a letra dessa música, era tido pelos filhos do rock como uma música aristocrática e esnobe. Mas Paul é um estilista , um amante da forma, da curiosidade dos estilos mesmo.

Ironicamente, a letra dessas parece o espelho invertido de uma letra de George Harrison nos Beatles ; " I love you and you, you seem to like me " é precisamente o contrário de " You like me too much and I like you " . Tais os diferentes temperamentos entre os gênios de Liverpool.

Bastante engenhosa a harmonia de You Gave Me The Answer, sempre com uma pitada de originalidade e surpresa , como o acorde ré menor onde poderia se esperar um ré maior ali, entremeados de procedimentos típicos do jazz e dos musicais da Broadway .

You gave me the answer
to love eternally.
I love you and - you,
you seem to like me.

Wherever we wander
The local folk agree,
I love you - and you
you seem to like me.

Heading back to old familiar places,
Places where the cobwebs blow away
I can forget the airs and graces

TERPSICHORY…..

You'll never be crowned by
The aristocracy,
to their delight, you'd merely invite
them in for a cup of tea….. and

I love you and - you
you seem to like
you seem to like
you seem to like
me.
Versão ao vivo, da turnê Rockshow/Wings over America

Versão de estúdio (Venus and Mars, 1975)


Em quarto lugar na lista das melhores do Paul , temos agora London Town ( 1978, do álbum homônimo) - uma homenagem à capital inglesa no mesmo tom de crônica oblíqua que ele imprimira antes em Penny Lane, esta sobre um bairro de Liverpool. Por meio de personagens como o ator desempregado, o barqueiro e o policial com um balão rosa (!) , é com essas imagens peculiares que Paul traça um panorama da cidade. Sublinhe-se aí o velho amor de Paul às histórias mundanas e triviais de personagens comuns, com quem ele obviamente se identifica, construindo pequenas narrativas, pequenos "causos" que ilustram a vida de um lugar. Ao invés de apelar a fatos históricos, signos de uma capital imperial que praticamente comandou o mundo no século anterior, o compositor prefere identificar no povo comum, simples, a essência vital dessa cidade.

O arranjo e a forma são, mais uma vez, inusitados, e, sobretudo, o discurso harmônico. Uma introdução instrumental em que se destacam o piano elétrico e o piano acústico, sugere o tom de Si Maior , até que por meio de empréstimos modais a música se inclina a Mi maior, tom da primeira estrofe, cantada em três vozes, com Linda e o escudeiro Denny Laine, do Wings. De súbito em seguida, temos uma estrofe diferida em Lá Maior , com Paul cantando sozinho, onde no fim temos a altamente original cadência : F#m7 / Gm6 / E7/G# / A , cromatismo delicioso que se aproxima das piruetas harmônicas mais típicas da música brasileira, ainda que com um vetor nitidamente tonal. Mais interessante ainda é a semelhança deliberada com a cadência : D/F# / G / F#/A# / B que abre a música. Esse estrofe diferida ( em Lá Maior) é repetida mais uma vez ( dessa feita com uma segunda voz ) , seguida pela repetição engenhosa de motivos já expostos no tema, até voltarmos a uma segunda estrofe original, de novo em três vozes. Até o fim ainda aparece um breve intermezzo instrumental com o protagonismo de um slide guitar, até voltarmos com a fusão dessas cadências e uma lembrança sintética do proto-refrão - London Town. Nesse mosaico de passagens e imagens, temos também um rico colorido instrumental : cordas, sintetizadores, vocais, guitarras base e solo, pianos elétrico e acústico, e bateria remetem aos dias mais psicodélicos dos Beatles . Só que dessa vez, com um pouco mais de ingenuidade e engenhosidade meticulosa típica das melhores canções de Paul.

Walking down the sidewalk on a purple afternoon
I was accosted by a barker playing a simple tune
Upon his flute - toot toot toot toot

Silver rain was falling down
Upon the dirty ground of London Town

People pass me by on my imaginary street
Ordinary people it's impossible to meet
Holding conversations that are always incomplete
Well, I don't know

Oh where are there places to go
Someone somewhere has to know
I don't know

Out of work again the actor entertains his wife
With the same old stories of his ordinary life
Maybe he exaggerates the trouble and the strife
Well, I don't know

Oh, where are there places to go
Someone somewhere has to know

Crawling down the pavement on a Sunday afternoon
I was arrested by a rozzer wearing a pink balloon
About his foot - toot toot toot toot

Silver rain was falling down
Upon the dirty ground of London Town

Someone somewhere has to know
Silver rain was falling down
Upon the dirty ground of London Town



Em suas aventuras de forma e estilo, Sir Paul às vezes parece prenunciar movimentos e tendências, ainda que muito específicos. Em quinto lugar na Lista do Paul, cito aqui a bizarra Monkberry Moon Delight, de 1971, do recém relançado disco Ram, o segundo de sua carreira, ao lado de Linda, com quem ele assina a autoria dessa música; nesse caso, é como se Paul antevisse por um momento o surgimento do grande Tom Waits , alguns anos antes de seu surgimento. O piano, o sabor meio antiquado da construção musical, e sobretudo a voz rouca são claramente traços do estilo do americano. A voz rasgada e gutural grita em desespero versos enigmáticos, sobre a feitura alquímica de uma substância denominada de Delícia de Monkberry Moon. Se é uma seiva sagrada, uma poção mágica ou uma geléia alucinógena, difícil decifrar. O fato é que a visão terrível de dois jovens dentro de um barril sugando Monkberry Moon Delight é uma das cenas mais oníricas no cancioneiro de McCartney, com vários elementos perturbadores.

A harmonia é simples, em Dó Menor, com a participação elementar de Sol Menor (quinto grau do modo natural de Dó Menor ) , Sol maior com sétima (Dominante primária de Dó Menor ) , Fá Menor (Subdominante) e a brevíssima aparição de Lá Bemol com Sétima, substituto da dominante da dominante : tudo em casa, procedimentos arquetípicos da harmonia ocidental. Mas o que salta aos ouvidos é a levada quadrada de piano martelado , o arranjo obsessivo com um ostinato ( motivo melódico repetido) de guitarra e vocais de apoio meio infantis mas claramente malignos, e a forma, mais uma vez, interessante : uma primeira estrofe (de 10 compassos, de dois versos de 5 ), é seguido de um primeiro estribilho - Catch Up ! Soup and Pourée! - e logo de uma estrofe diferida que é exatamente igual à primeira mas dividida ao meio no primeiro verso, o que resulta em 8 compassos. Daí uma ponte com baixo descendente , preparando o refrão , que consiste em algumas repetições do enigmático título da canção. Voltamos para estrofe, o estribilho, e dessa vez direto para o refrão, que é reiterado por muitas vezes, ocasião propícia para que Paul cante absurdamente numa oitava acima a melodia que, de primeira, já era em alta tessitura, desembocando num improviso vocal sobreposto ao canto dos vocais de apoio e da voz principal que continua: Monkberry Moon Delight. Essa máscara de Paul é uma das mais impressionantes, rompendo a imagem usual de Peter Pan que ele sempre cultivou.

Numa última nota, vale a pena lembrar do conceito de canção expandida, não me lembro se de Wisnik ou Tatit [Wisnik
+ Arthur Nestrovski n.e.]: o que importa aqui não é só letra, harmonia e melodia, pelo contrário, a performance e o arranjo são cruciais para o sentido da criação musical, principalmente no que se refere ao canto impressionante do ex-Beatle.

Aqui vai a letra com uma tradução meio tosca mas interessante que achei na internet :

So I sat in the attic,
A piano at my nose,
And the wind played a dreadful cantata (cantata...).
Sore was I from the crack of an enemy's hose,
And the horrible sound of tomato (tomato...).

Ketchup (ketchup)
Soup and puree (Soup and puree),
Don't get left behind (get left behind)...
Ketchup (ketchup)
Soup and puree (Soup and puree),
Don't get left behind (get left behind)...

When a rattle of rats had awoken,
The sinews, the nerves and the veins.
My piano was boldly outspoken,
in attempts to repeat its refrain.

So I stood with a knot in my stomach,
And I gazed at that terrible sight
Of two youngsters concealed in a barrel,
Sucking monkberry moon delight.
Monkberry moon delight,
Monkberry moon delight,
Monkberry moon delight,
Monkberry moon delight.

Well, I know my banana is older than the rest,
And my hair is a tangled beretta (beretta...).
When I leave my pajamas to Billy Budapest,
And I don't get the gist of your letter (your letter...).

Catch up! (catch up),
Cats and kittens (cats and kittens),
Don't get left behind (get left behind)...
Catch up! (catch up),
Cats and kittens (cats and kittens),
Don't get left behind (get left behind)...

Monkberry moon delight...
Monkberry moon delight...
Suckin' monkberry moon delight...
Monkberry moon delight...

"Try some of this, honey!"
"what is it?"
Monkberry moon delight...

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