Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

4 de dezembro de 2012

As 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro: LISTA 1 Parte 1

Há muito tempo eu e o meu parceiro Pablo Castro vínhamos conversando sobre a possibilidade de fazer, para a música popular brasileira, algo nos moldes do projeto "Notes on...series" do musicólogo norte-americano Alan W. Pollack. Num impulso daqueles que vira e mexe ataca os criadores inquietos, ele pôs a mão na massa crítica e começou o projeto justamente pela obra do Clube da Esquina, que para nós é uma referência fundamental. Se um dia comecei a entender com mais precisão o que seria propriamente o Clube da Esquina, o Pablo é o grande responsável, como está contado na introdução da minha tese. Assim me dá grande satisfação mais esse desdobramento da nossa parceria, há tanto imaginado, agora aparecer aqui. Com vocês, sem mais, as 30 mais geniais do Clube da Esquina, por Pablo Castro:


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Qualquer lista das x mais costuma ser inútil quando não é a sua própria! Decidi fazer algumas listas, no sentido até de aplicar a quem não conhece obras que eu considero muito importantes. De forma que começo com a lista das 30 mais geniais do Clube da Esquina! Pode-se considerar 30 um número um pouco grande, mas ainda é muito complicado condensar as pérolas mais raras de um grupo tão forte de compositores.



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Começo então por RIO DOCE, de Beto Guedes, Tavinhomoura Moura e Ronaldo Bastos. Gravada primeiramente como instrumental, e só com a parte A, no disco Sol de Primavera, ela foi desenvolvida com uma sensacional parte B, de Tavinho, contrastante sinuosa e de modulações inesperadas, mas com o mesmo desembocar solar que é tão característica das composições de Beto. Participação vocal da Joyce!



RIO DOCE

Vai a me levar como se fosse
Indo pro mar num riacho doce
Onde ser é ternamente passar

São vidas pequenas das calçadas
Onde existir parece que é nada
Mas viver é mansamente brotar

Muito prazer de conhecer
Muito prazer de nessa rua ser seu par
Ao partilhar do teu calor
Você liberta a primeira centelha
Que faz a vida iluminar

A correnteza me levou
Me apaixonei em todo cais que fui parar
Cada remanso um grande amor
Por esses breves eternos momentos
Que tive o dom de navegar

São vidas dos belos horizontes
Gente das mais preciosas fontes
Onde ser é ternamente brotar
Vai cantando as voltas do moinho
Onde a beleza teceu seu ninho
Mas viver é mansamente passar


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Vamos prosseguir com VIA LÁCTEA, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, música do álbum homônimo de 1979. Bela canção em 6/8, levada bastante frequente em músicas de Lô e Beto, sobretudo ( Rio Doce, já citada aqui, é bem próxima disso, mas talvez seja mais exato caracterizá-la como 12/8). A melodia de Lô faz uma ponte entre as tendências McCartneyanas e Jobinianas de uma forma magistral, fazendo a harmonia parecer mais simples do que é na verdade. 

Naturalidade e sofisticação são duas coisas que pouquíssimos compositores podem atingir, e é o caso de Lô nessa canção. A letra, mais uma vez de Ronaldo Bastos, é uma variante da temática 'viagem' , desta feita com metáforas cósmicas, e ícones como carrossel, pão e mel, picadeiros, primaveras ... bastante concretista essa letra, a la Caetano, mas com a marca indelével do ethos do Clube: o sonho.



VIA LÁCTEA

Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar

Caravela, pão e mel
Segue o circo a rolar
Picadeiros, primaveras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia viver
Na espuma do mar

E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou...

Que navega no céu
Que navega no ar
Grão de areia bailar
Lá no fundo do azul

E anda que nem bola
Como a vida
Quando quer brotar
Rola como anda
Que nem fonte de calor...

Barricadas, cordilheiras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

Aventuras, cicatrizes
Segue o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

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Terceira selecionada: FALSO INGLÊS, de Toninho Horta e Fernando Brant. Sensacional aqui como o Toninho, numa forma bem simples , praticamente só com um A e um B, e poucos acordes, consegue algo tão original e de efeito tão marcante. Fascinante como uma subdominante com baixo na terça pode ter um efeito sutil e grandioso. 

E Fernando Brant, numa de suas melhores letras, exerce aqui um humor que ele não atrevia a destilar em suas parcerias com Milton e, de quebra, dá um tapa de luva em quem ainda defendia (e defende) que o inglês é uma língua mais musical, ainda que não se saiba bulhufas do que trata a letra. 

Sem o menor pudor, ele faz algo que nenhum Chico, Caetano ou Gil fez: todo um refrão cantado numa língua inventada! E a história, tão típica de um país submetido ao domínio imperial da indústria cultural anglo-saxônica, devolve uma flor com cheiro de irreverência aos ditames do inglês de Copa do Mundo que querem fazer nossos taxistas "aprender" pra não fazer feio num evento que não dura mais do que um mês - Salve o Falso Inglês !!!

FALSO INGLÊS

Eu ouvi Paul Anka
Um Dia
Eu ouvi Ray Charles
Bill Halley

No rádio eu sempre ouvi
mas não entendia nada de inglês
mas eu guardava o som
toda melodia sem poder cantar

Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês
Gene Kelly
canta e dança sem eu entender
Eu via Fred Aster
legenda não serve pra poder cantar

Eu tive que inventar um jeito de cantar inglês
Beatles, Dylan
ouvi uma vez e eu cantei

Eu lembro que inventei 
todos se encantaram com meu falso inglês

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

Um uoraniusi onaruei olefitiudei
Wonder Woman
Lairanidamudiseiomai

Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai
Uoooo uoraniussi uoriganfalanrier lefitiudeiomai

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Pérola número quatro - GRAN CIRCO, de Milton Nascimento e Márcio Borges
Interessante como, 8 anos antes da obra-prima "O Grande Circo Místico", de Edu Lobo e Chico Buarque, em 1975 Márcio Borges já associava ao tema circense um ar sombrio, como que virando a gargalhada do avesso e antevendo , nos bastidores, a loucura da bailarina e a fome do palhaço, a costela quebrada. 

Tema esse que ele voltou a explorar em Pão e Água, de 1978. Lançada no disco Minas, talvez o mais forte trabalho fonográfico de Bituca, a faixa apresentava o compositor ao piano, com Fafá de Belém em início de carreira fazendo um vocalise, e um arranjo stravinskiano politonal de Wagner Tiso, uma pancada! 

Os acordes suspensos de Milton são absolutamente geniais, e sintéticos, sem exageros, a forma praticamente só com um A e uma introdução que se repete. Destaque para o intermezzo magnífico, algo difícil de definir, sucinto, e uma melodia no piano no finalzinho da música, quase inaudível, é preciso subir bem o volume pra escutar, linda linda, e nada a ver com o resto! Talvez seja a caixinha de música da bailarina louca!


GRAN CIRCO

Vem chegando a lona suja

O grande circo humano
Com a fome do palhaço e a bailarina louca
Vamos festejar
A costela que vai se quebrar
No trapézio é bobagem
A miséria pouca

Bem no meio desse picadeiro

Vão acontecer
Morte, glória
E surpresas no final da história
Pão e circo prata e lua
Um sorriso vai se desenhar
No amargo dessa festa
Junto dessa escória

Sobe e desce a montanha

O grande circo humano
No seu lombo, no seu ombro magro
Carregando
Prata e luar
O mistério que vai se mostrar
No arame
Equilíbrio sobre o sol raiando

Sonha espera o grande circo humano

Coração partido circo humano


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Quinta indicada - CANOA, CANOA de Nelson Ângelo e Fernando Brant. Canção ímpar, violenta em seu intervalo de trítono na melodia febril de Nelson Ângelo, que se tornou, como Fazenda, do mesmo autor, um clássico sem nunca ter sido muito tocada nas rádios ou nos shows do intérprete Milton Nascimento. 

Com uma tonalidade ambígua, a harmonia passeia entre um sol maior e um si menor, sem nunca se definir claramente, a não ser no B, espécie de refrão, que é claramente em mi menor. 

 A tradução do tema indígena para a canção popular foi uma veia usada por Fernando Brant em pelo menos mais uma música : Promessas do Sol, mas Canoa Canoa talvez seja uma experiência ainda mais bem sucedida, com um refrão contendo nada mais do que nomes de peixes amazônicos e ainda assim sendo altamente contagiante e poderoso. 

Arranjo primoroso do compositor, que toca o violão, com Wagner Tiso ao Piano, Nenê na Bateria, e Novelli no baixo acústico, além de Danilo Caymmi na Flauta.

CANOA, CANOA

Canoa canoa desce

No meio do rio Araguaia desce
No meio da noite alta da floresta
Levando a solidão e a coragem
Dos homens que são
Ava avacanoê
Ava avacanoê
Avacanoeiro prefere as águas
Avacanoeiro prefere o rio
Avacanoeiro prefere os peixes
Avacanoeiro prefere remar
Ava prefere pescar
Ava prefere pescar
 
dourado, arraia, grumatá
piracará, pira-andirá
jatuarana, taiabucu
piracanjuba, peixe-mulher
jatuarana...


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 A sexta, e última por hoje ( pretendo postar 6 por dia até o fim da semana pra completar as 30) - TESOURO DA JUVENTUDE, de Tavinhomoura Moura e Murilo Antunes. Um dos temas mais visitados e originais do cancioneiro do Clube da Esquina é o da infância, não só como lembrança ou saudosismo, mas no sentido ver o mundo com os olhos da criança, e outro tema fundamental no universo esquiniano é o passado , a história, o que foi e não é mais. 

Essa canção une os dois temas de maneira bastante equilibrada, e ainda o da viagem, que é o assunto preferido de toda a obra do Clube da Esquina. Fala do veterano da guerra, das frutas roubadas, da bicicleta, da pedra no poste, uma infância que as novas gerações só podem imaginar ... mas que são muito naturais e verdadeiras pra boa parte daqueles nascidos no século XX em cidades menores que megalópolis, como um dia foi Belo Horizonte, e ainda é Pedra Azul. 

Beto Guedes aprendeu logo a gravar pelo menos uma música de Tavinho Moura por disco, e ele não estava errado, dada a criatividade incrível de Tavinho para fazer as músicas mais arrojadas com materiais harmônicos ( acordes) tão simples. Absolutamente genial a assinatura melódico-harmônico-rítmica de Tavinho Moura, no espectro oposto do Toninho. 
Sem nenhum traço de influência jazzística, Tavinho ergueu sua absurda obra praticamente só com acordes maiores, menores, com sétima e diminutos, às vezes com quintas aumentadas, mas com cadências inesperadas e saltos surpreendentes que , nessa canção, ilustram perfeitamente as peripécias de um menino andando de bicicleta no interior de Minas na década de 50. Há uma linda versão dessa no novo dvd de Murilo Antunes Dvd


TESOURO DA JUVENTUDE

A pedalar

Camisa aberta no peito
Passeio macio
Levo na bicicleta
O meu tesouro da juventude
Passo roubando fruta de feira
Passo a puxar meu estilingue
Vai pedra certeira no poste
Passa um veterano
E já cansado
Herói de guerra
Grito: Lá vem a bomba!
E meu tesouro me leva
Pelas ruas de Santa Teresa
a rodar, a rodar
A pedalar
Encontro amigo do peito
Sentado na esquina
Pula, pega garupa
Segura o bonde ladeira acima
Ganha o meu tesouro da juventude
Ainda que a cidade anoiteça
Ou desapareça
Piso no pedal do sonho
E a vida ganha mais alegria
Ganha o meu tesouro da juventude
Que foi em Pedra Azul
E em toda parte
Onde tive o que sou

12 comentários:

  1. Show!!!! Os sons que vem de Minas ecoam como o apito de um trem que passa soltando fumaça de pão-de-queijo. (Flávio Salles - sócio remido do Clube da Esquina).

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    1. Valeu Flávio, volte sempre, de trem, de avião, de canoa, a pé, como for...

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  2. É como um unguento, um elixir, com alto poder curativo. É assim que estou ouvindo e lendo essas musicas maravilhosas e estes textos certeiros. Muito obrigada! Luciana Royer (arquiteta, professora, ouvinte inveterada desse pessoal do clube)

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    1. Satisfação total nossa esse seu comentário Luciana. Fique à vontade e passe por aqui quando quiser.

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  3. sonia.fernandes49@hotmail.com9 de dezembro de 2012 11:31

    Presente inestimável o trabalho de vcs, que sou do século XX, e, tive, na verdade, tenho o prazer, a ventura de acompanhar o "CLUBE DA ESQUINA". Foi através do MILTON (paixão absoluta) que conheci todos os queridos MINEIROS.Acho que um OBRIGADA é muito pouco para agradecer a vcs. Já passei este legado para meu querido filho que os aceitou incondicionalmente. Meu amor procês. SONIA FERNANDES (ANALISTA DE sISTEMAS E PSICÓLOGA).

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    1. Cara Sônia, agradecemos muito sua mensagem e presença. Que bom que está passando adiante a vontade de ouvir e conhecer a obra do Clube da Esquina, esse é um dos objetivos mais importantes da nossa iniciativa. Abração!

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  4. Saudades das Gerais! Grande, grande, grande seleção. Gracias

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    1. Ô Sabrina, um pouco da saudade mate por aqui! Obrigado!

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  5. poesia e música
    em profusão
    novas formas
    outras estradas
    e não se separam
    tão nobres matérias
    ad infinitum em nós

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  6. Nossa, sem palavras... Amo clube da Esquina, muito bom ver que existem pessoas que reconhecem a sensibilidade e genialidade deles. Muito obrigada por ter postado isso!

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    1. Então Dan, estamos cada vez mais celebrando a boa música do Clube e felizes por tanta gente que passa aqui e deixa uma mensagem como a sua. Obrigado!

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