Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

8 de dezembro de 2012

As 30 mais genais do Clube da Esquina, por Pablo Castro - LISTA 1 Parte 4

Parte 4, feita no sufoco num sábado com mais trabalho que diversão. Mas vamos que vamos, e quem quiser passar pelas outras partes pode conferir aqui mesmo no blog:
Parte 1; Parte 2; Parte 3; Parte 5

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Lista do Clube - a saga continua ! N° 19 UM GOSTO DE SOL, Milton e Ronaldo Bastos. Ponto de interseção com a mais consagrada Cais, dos mesmos autores, Um Gosto de Sol se revela, por outro lado, um viés talvez mais existencialista - em vez de "e sei a vez de me lançar", o que implica, apesar de todo o ceticismo, ainda uma ação, temos aqui a memória de um enigmático relance como prova da inexorabilidade da perda ou, para uma pera esquecida na fruteira, o apodrecimento dos sonhos e do riso que não voltam mais... 

A incompletude humana se espelha nas reticências do que é dito, e sobretudo do que não é dito mas é intuído e sentido na música. Um Gosto de Sol é a ocasião propícia para o piano de Bituca, num 6/4 fluido que as divisões "estacatas" dos acordes são contrabalançadas pelas longas notas da linha de baixo ( no piano), enquanto o sutil reverb na voz de Milton corrobora o distanciamento de toda a cena. 

O tema final , na verdade é o mesmo que aparece no fim de Cais, e consiste numa linha de baixo descendendo sobre blocos de acordes em Dó Menor ( Um Gosto de Sol é em Dó Maior) e, de fato, a melodia é o baixo, que, depois de transpor o trecho primeiro para a subdominante, modulando em seguida ao relativo maior, passa por um acorde aumentado e a melodia em escala de tons inteiros, o que confere um distinto senso de perda de direção que na verdade é o subtexto de toda a canção. Gravada no disco Clube da Esquina (1972), é o momento mais dramático do disco.

UM GOSTO DE SOL

Alguém que vi de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira

Alguém sorriu de passagem

Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira


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A vigésima escolhida é SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar), canção de Milton e Fernando Brant na rara métrica de 5/4, tematizando o passado pré-64, o tempo dos bondes, da primeira coca-cola, da campanha da Itália, sobretudo da companhia aérea brasileira Panair, perseguida pelo regime militar e que faliu poucos anos depois do golpe. E tematizando, também, por outro lado, a conversa do bar, de forma que os dois títulos da música incorporam na verdade os dois temas da letra. Como é comum nas melhores letras do Clube, vozes ocultas e frases malditas aparecem como assombrações do passado na camisa de força de Minas, o lado sombrio da cultura montanhesa- "no fundo do quintal morreu, morri a cada dia dos dias que eu vivi". O coro semi-afinado de bebuns homens comuns na mesa do bar conduz a música até que Milton assuma, com sua voz de Deus: nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar. Percussões variadas e agudas, violões rasqueados e súbitos, coros gregos, sussurros sombrios, os meninos Paula e Bebeto, guitarra de Toninho Horta, um caleidoscópio de sons e memórias... Para a magnífica coda, a tempo vira para 3/4, e o ciclo de quartas desce como um carrossel enquanto a cena é vista cada vez de um ponto de vista mais distante, em volta da cidade .... Absolutamente magistral!

SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR (Conversando no Bar)

Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeira

E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levei um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno nas asas da Panair

E lá vai menino xingando padre e pedra

E lá vai menino lambendo podre delícia
E lá vai menino senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado sem pavor
O medo em minha vida nasceu muito depois
descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair

Nada de triste existe que não se esqueça

Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere o coração
Nada de novo existe nesse planeta

Que não se fale aqui na mesa de bar

E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta
Que no fundo do quintal morreu
Morri a cada dia dos dias que eu vivi
Cerveja que tomo hoje é apenas em memória
Dos tempos da Panair
A primeira Coca- Cola foi me lembro bem agora
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair

Em volta desta mesa velhos e moços

Lembrando o que já foi
Em volta dessa mesa existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas existe a rua
Vivendo seu normal
Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais
Em volta da cidade


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FAZENDA é a de número 21, letra e música de Nelson Ângelo, que abre o disco Gerais (1976), dando o tom mais 'regional' de um álbum que contém coisas como Calix Bento, Carro de Boi, Circo Marimbondo, a andina Caldera e Volver a los 17 e a indígena Promessas do Sol

O poder de síntese do músico Nelson Ângelo na feitura dessa letra é de se admirar, tecendo por meio de imagens todo o cenário de uma experiência tão comum daquela época: as férias na fazenda de algum parente... cabe ressaltar que o cancioneiro do Clube tem um lugar deveras importante para o tema da infância: podemos citar Era Menino ( Beto Guedes , Tavinho Moura e Murilo Antunes), Tesouro da Juventude ( Tavinho e Murilo) [já comentada na 1a. parte desta lista], Pablo ( Milton e Ronaldo Bastos), Gabriel ( Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Maria Solidária ( Milton e Fernando Brant) Dindilin (Tavinho Moura e Fernando Brant ) Bola de Meia, Bola de Gude (Milton e Fernando) e outras. 

Fazenda incorpora esse olhar pelas experiências sensoriais que a Fazenda e a vida lúdica das férias representam, especialmente intensas quando se é criança. Musicalmente ela se baseia em uma frase melódica simples, com apenas 3 notas, mas escolhidas a dedo: a quinta , a sétima e a sétima maior de um tom menor (no caso, Si), numa sequência de 3 acordes menores : Bm7, Gm7 e F#m7. Nesse caso, parecemos estar em Si menor ou seu relativo Ré maior. ( Milton talvez seja o grande precursor em encadear belamente sequências de acordes menores sem maiores relações clássicas de parentesco harmônico) 

Na segunda sessão desse grande A, que leva a um "proto-refrão", vamos para Lá maior, tom próximo do anterior, e a melodia , mantendo sua unidade, sobe o perfil a alturas maiores, a voz de Milton com seu costumeiro reverb divino , parece vir do alto da montanha : e no amanhã , nós ... 

A orquestração de Nelson Ângelo risca notas agudíssimas, algumas curtas, outras longas, mas sempre em uníssono, em vez de acordes; enquanto as flautas colorem bicas no quintal, Beto Guedes canta algo como " tinha arara " como segunda voz e na despedida, com a bateria espetacular de Robertinho, ficamos suspensos naquele fio de memória ... 

Ficha Técnica: 
Milton Nascimento - Voz e Violão
Nelson Ângelo : Viola de 10, violão e orquestração
Novelli : Baixo e piano
Robertinho Silva : Bateria
Beto Guedes : Vocal, se não me engano...



FAZENDA

Água de beber

Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós(2x)
Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá(4x)

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MILAGRE DOS PEIXES é a escolhida de número 22, na lista das 30 melhores do Clube da Esquina. Parceria entre Milton e Fernando Brant, deu nome ao disco de estúdio, o mais experimental de Bituca, e o de orquestra ao vivo, o mais grandioso. 

Nessa música Milton consagra de vez sua assinatura harmônica, levando às últimas consequências os cromatismos harmônicos descendentes que vinham desde Canção do Sal, passando por Sentinela, Nada Será como Antes, Novena, A Sede do Peixe (que antes era um tema instrumental) , e a sublime Vera Cruz, e os movimentos harmônicos sobre o baixo pedal, que se verificam em canções como Morro Velho, Fé Cega, Faca Amolada, Maria, Maria, Ao que Vai Nascer, Os Povos, Amigo, Amiga, Cadê, Tema de Tostão e outras. 

Para leigos, esses cromatismos são pequenos grandes movimentos de fuga do campo harmônico onde estávamos no momento anterior, enquanto o baixo pedal é a manutenção de uma nota grave com a qual os acordes que mudam vão mantendo diferentes relações. 

Em Milagre dos Peixes, ambos os procedimentos são fundidos como em nenhuma outra, num equilíbrio que a destacou até dentro do repertório absurdamente rico e original de seu criador, o que logo foi notado por Wayne Shorter, com quem Bituca gravou, no mesmo ano, um álbum em parceria, Native Dancer

Milagre dos Peixes é também um dos maiores feitos de seu letrista, Fernando Brant, condensando o forte signo dos 'peixes' com o jugo verde da ditadura e da já poderosa presença da televisão, amarrando vários dos interesses fundamentais do credo, ou do ethos, do Clube , entre eles o elo redentor da amizade, o amargor da situação política, e as metáforas de longo alcance, o que permitiu que não se reduzissem àquele contexto histórico. 

A forma é exemplar : um estrilho que começa (e termina) a parte cantada, uma estrofe, um B, que leva de novo ao A e fecha com o estribilho, repetido para a improvisação vocal de Milton e um chorus clássico para improvisação jazzística. Extra-terrestre ! :)

Ficha técnica:
Mliton : Voz e violão
Toninho : guitarra
Wagner : piano e órgão
Nivaldo : sax
Robertinho : bateria
orquestração : Wagner Tiso 


MILAGRE DOS PEIXES

Eu vejo esses peixes e vou de coração
Eu vejo essas matas e vou de coração à natureza

Telas falam colorido de crianças coloridas
De um gênio televisor
E no andor de nossos novos santos
O sinal de velhos tempos
Morte, morte, morte ao amor

Eles não falam do mar e dos peixes
Nem deixam ver a moça, pura canção
Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol
E eu apenas sou um a mais, um a mais
A falar dessa dor, a nossa dor

Desenhando nessas pedras
Tenho em mim todas as cores
Quando falo coisas reais
E no silêncio dessa natureza
Eu que amo meus amigos
Livre, quero poder dizer

Eu vejo esses peixes e dou de coração


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A vigésima terceira é PEDRA DA LUA, de Toninho Horta e do saudoso poeta e letrista Cacaso. Toninho é este artista impressionante e expressionista da harmonia, e nessa canção ele já inicia o discurso com um acorde altamente dissonante , um alterado com a seguinte cifra : E7M(b10), segundo a nomenclatura do mestre mundial em teoria da harmonia, o brasileiro Fábio Fabio Adour

O que é mais fascinante é como Toninho consegue dar sequência lógica funcional a acordes aparentemente "irracionais", e a metáfora da pedra da lua converge perfeitamente à estranheza de alguns acordes. A música acaba por se revelar como uma colcha de retalhos de fragmentos de memórias, e a mãe é a figura central. A infância é mais uma vez resgatada com imagens aparentemente desconexas , pequenos jogos de palavras com múltiplas ressifignações (lembrei desse termo vendo a entrevista do Gil no Jô !), e a pedra da lua, a mais enigmática... 

A forma, que, enredando sutilmente o fim de uma estrofe com o início de outra, proporciona um aspecto cíclico, faz com que tenhamos mais uma vez , tirando a introdução vamp nesse acorde de Mi alterado já referido acima, apenas uma seção, um A repetido , enredado e diferido, mas não um B contrastante. Talvez, do ponto de vista da estrutura formal, a "lição" mais clara da apreciação da obra do Clube seja essa sinteticidade que permite as maiores aventuras harmônico - melódico - rítmicas sem que a fruição da canção se perca num hermetismo, numa música para músicos. 

Essa relação equilibrada com procedimentos arquetípicos da música popular no fim das contas aparece muito sob o aspecto da forma. Aqui, por exemplo, temos essa seção principal da música com 12 compassos, o que é um número presente , por exemplo, no blues ... temos também em comum esse clima melancólico, profundo, perene que as pedras pontudas dos acordes nos arranham os ouvidos e corações...

PEDRA DA LUA

Dia, mania

Tarde covarde, noite açoite
Minha mãe calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino levante cedo
Menino não chegue tarde
Dia folia, tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino não morra cedo
Menino não chegue tarde
Dia mania... 


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A vigésima-quarta da nossa lista é PAIXÃO E FÉ, de Tavinho Moura e Fernando Brant. Esse clássico que toca todo dia na Rádio Inconfidência às 6 da tarde (ou pelo menos tocava) celebra as raízes religiosas da cultura interiorana mineira, evocando as procissões, os cultos católicos entranhados na alma alterosa. 

Tavinho, com sua harmonia arrojada de acordes perfeitos, e métrica irregular, sai de lá maior , e rapidamente para mi maior, para desembocar em sol maior no refrão. Essas constantes modulações soam como degraus ascendentes frente à revelação espiritual da fé e da paixão. A agonia fica por conta de súbitos empréstimos modais que se resolvem via cromatismos ascendentes heterodoxos. 

Milton a gravou na super-produção do disco Clube da Esquina 2, onde ele experimentou particularmente o recurso de sua própria voz dobrada (aqui alternando entre intervalos de terças e oitavas), enfatizando aquele aspecto místico - religioso do seu canto. 

Beto Guedes estrela no seu virtuoso bandolim e os Canarinhos de Petrópolis fazem o contraponto angelical dessa canção de louvor à Fé e à Paixão. Clássico Imortal, e um exemplo de como a música pode abordar a religiosidade cristã sem aquele pedantismo evangélico que tanto caracteriza o gênero gospel .

PAIXÃO E FÉ

Já bate o sino, bate na catedral

E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressureição

E sai o povo pelas ruas a cobrir

De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei

No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração

E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor
 

 

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