Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

31 de dezembro de 2012

Adeus ano velho, feliz ano novo

Enfim o mundo não acabou e nós chegamos ao último dia do ano de 2012. Venho fazendo uma retrospectiva de postagens desse ano, não necessariamente as "melhores", mas as mais significativas por um motivo ou outro. Nada propriamente sistemático mas geralmente escolhi uma por mês. Vou ver se coloco os links ao final dessa postagem ou em uma página separada. No geral posso dizer que foi um ano importante para consolidar algumas ideias em relação ao blog, fazer melhorias e crescer em acessos e assinantes, especialmente pelo sucesso da lista das canções do Clube da Esquina feita pelo Pablo Castro neste dezembro. Muitos planos para 2013, incluindo maiores colaborações e mudanças no layout que já estou estudando. 
Para encerrar o ano acabei reunindo alguma coisa a partir de uma canção de ano novo, Ding Dong, Ding Dong, de George Harrison (compacto simples e disco Dark Horse, 1974). Uma das maiores qualidades dele, que sempre me causou forte impressão, é a inclinação para a auto-ironia. Uma canção aparentemente despretensiosa, calcada numa expressão de uso corrente para celebrar a virada do ano, estava de fato impregnada pela eminência de sua separação - "Ring out the old, ring in the new". Ring nesse caso remete ambiguamente ao soar dos sinos e ao uso do anel. Essa citação, trecho da seção do poema In memoriam de Lorde Tennyson, e outras tantas frases e expressões, George encontrou gravadas em vários pontos de Friar Park, a mansão cheia de jardins em que viveu e que pertecera ao advogado e homem de ciência da Inglaterra vitoriana, Sir Frank Crisp. Além de homenageá-lo com uma canção de seu álbum solo de estréia, All things must pass, Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll), Harrison deixou em outras canções pistas da influência de Crisp, que além de naturalista era membro eminente da Real Sociedade de Microscopia. Daí viria a referência ao microscópio em The Answer's at the End (1975, Extra Texture): "Scan not a friend with a microscopic glass/ You know his faults now let his foibles pass". Outra inscrição aparece citada na 2a. parte de Ding Dong, Ding dong, uma brincadeira com a passagem do tempo - e uma provável ironia direcionada principalmente a McCartney e os títulos de suas canções "Yesterday, today was tomorrow / And tomorrow, today will be yesterday", mas de modo geral sarcástica em relação a qualquer sentimento nostálgico relativo aos tempos dos Beatles. O vídeo promocional deixa tudo tão evidente que nem preciso falar mais nada. Só Feliz Ano Novo!







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