Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

27 de maio de 2012

Gilnial!

Uma conjunção cósmica orquestrada por estrelas que passaram bem perto da minha casa fez cair literalmente do céu um par de convites para o espetacular show "Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo" de Gilberto Gil. Já estava tomado de grande ansidade em presenciá-lo depois de ler o que havia escrito meu parceiro Pablo Castro, texto que reproduzo abaixo:
"Extraordinário, magnífico, sensacional o show do monstro Gilberto Gil ontem no Palácio das Artes. Provou, mais uma vez, que é um dos maiores criadores de música popular do século XX com sua imensa versatilidade, seu domínio de cada dimensão da canção, sua performance serena e intensa, seu radar cósmico, político, afetivo e filosófico. Uma banda de formação rara ( violoncelo - Morelembaum, violino, 2 violões, Gil e seu filho Bem, um percuterista e um programador) com a mais fina escolha de repertório que já vi numa apresentação do mestre, com pérolas como Futurível, Viramundo, Domingo no Parque, Máquina de Ritmo, Oriente, Não Tenho Medo da Morte, e sem nem um chavão, que alegria! Aos 70 anos exibe frescor na única inédita do show, Eu Descobri. Só pela imensa obra que deixa, Gilberto Gil já seria uma das personalidades mais influentes da cultura brasileira de todos os tempos, mas ainda teve a chance de dar outra dimensão ao Ministério da Cultura, infelizmente regredida ao que vemos hoje. Viva GIL!!!! 70 anos de um mestre!"
O que poderia acrescentar? Não precisa muito... Uma banda com entrosamento absoluto (menção honrosa para o 'percuterista' Gustavo di Dalva, impressionante!), arranjos preciosos, repertório surpreendente (o próprio comenta aqui), Gil cantando e tocando muito como sempre e o público absolutamente embevecido. Preferências atendidas? Expresso 2222 [eu e o João Bosco], Domingo no Parque, Oriente... Versões sensacionais? Juazeiro...Up from the skies...Panis et Circensis... Passagens pelos mestres? Jobim, João, Caymmi, Luiz Gonzaga... Emoções particulares? De sobra... Gil não poderia ter escolhido melhor o nome, pois ele próprio encarna-o - é um conjunto de cordas e uma máquina de ritmo sintetizados num brasileiro ímpar.

Como sempre ocorre nessas ocasiões, súbitos elos se formam, encadeando momentos diferentes. Lembranças dissipadas se condensam. Ouvindo o violão de Gil, lembrei-me que outro dia havia comentado de uma entrevista dada por ele pouco antes do retorno do exílio londrino. [As experiências e a volta de Gilberto Gil. Veja, 19/01/1972, p.67].
No Brasil, eu era um fazedor de músicas e tocava violão incidentalmente. (...) Eu me assustei, ao chegar na Inglaterra, com o nível, a qualidade, o acabamento da música que se fazia aqui. O meu nível não era nada, comparado com o da praça. Hoje, eu sou um instrumentista.
Seu relato ajuda a iluminar (junto à audição do disco que breve lançaria, Expresso 2222) os efeitos do período sobre sua música e especialmente seu jeito de tocar. Tratei do mesmo em minha tese para pensar o problema da interculturalidade, uma vez que Gil 

"(...) fala da necessidade de voltar ao Brasil, ainda que provisoriamente, para “retomar o contato com a coisa local”, pois a vida fora trouxera um “alargamento de visão” e uma “curiosidade enorme em torno das coisas brasileiras”, as quais reconhece não conhecer tão bem quanto pensava. Vivendo fora, havia passado por um “processo de absorção” da “música pop que não sofre a força da gravidade”, ou seja, não se prende ao tradicional / regional (representado pelo elemento terra). Em seu projeto de retorno, faz menção de “ir ao morro falar com os sambistas”, “ir a algumas cidades do nordeste encontrar violeiros repentistas” (GARCIA, 2007, p.85)
Mas enfim, como tuda essa conversa começou por causa das estrelas, só poderia terminar assim...


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