Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

1 de maio de 2012

1° de Maio

Meio sem tempo no feriado, meio que a trabalho mas por prazer, sentei para fazer uma breve postagem em homenagem à nata da .... ôpa .... aos trabalhadores (não vou me dar ao trabalho de deslindar esse conceito, fica ao gosto do leitor), nessa data carregada de significado e história. A história dos trabalhadores e a história da música popular se entretece de tantas formas que essa postagem curtinha ficaria fadada ao fracasso se tentasse explorar o assunto em detalhe. Senti o ferrinho cutucando, comecei a correr às estantes. Trabalho de pesquisa querendo se insinuar, nesse tempo de interrupção da labuta. Um trabalho que é outro, que fica noutro lugar. E agora? Já estão aqui "comigo", Michellet Perrot, E.P. Thompson, Jacques Rancière ... abro A noite dos proletários (que livro foda!), o 1° capítulo é "A porta do inferno" e lê-se a citação do operário-serralheiro-escritor Jérôme-Pierre Gilland:
 "Você me pergunta como vai minha vida; como sempre. Choro no momento devido a uma dolorosa reflexão sobre mim mesmo. Permita-me esse movimento de vaidade pueril; parece que não tenho vocação para ficar martelando o ferro." [A colméia popular, set. 1841]
Vem à minha mente essa frente incrível de Pessoas extraordinárias (nos lembra o mestre Hobsbawm) que movem o mundo, e por ele também são movidas. O que se celebra no 1° de Maio? Talvez um tempo que não seja o de vender o corpo e a mente em troca da sobrevivência, e a possibilidade humana de fazê-lo existir. Penso nisso enquanto escuto essa canção, inaugural parceria desse que é certamente um dos Grandes Encontros da Música Popular Brasileira, entre Chico Buarque e Milton Nascimento, gravada por Simone no álbum 'Face a Face' de 1977 (depois lançada em compacto simples pelos parceiros, junto com a 2a. cria, Cio da Terra) e aqui cantada por ela no show homônimo na Sala 'Corpo e Som' do 'Museu de Arte Moderna' (MAM), Rio de Janeiro.


Primeiro de maio 
Milton Nascimento - Chico Buarque/1977 

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã 


Com Chico e Milton, a versão do compacto:

3 comentários:

  1. Tá muito massa, mas acho que seria interessante uma visão mais ampla que pudesse explorar estes conceitos... este com certeza é um tema válido de pesquisa!!! vou ficar atento pra poder conferir a continuação deste post!!

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  2. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    LUIZ

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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