Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

15 de março de 2012

Recordações de pesquisa: lendo o Pasquim...

Pesquisa é uma aventura. É um roteiro sendo reescrito com o filme em andamento. Um pequeno passeio ou uma longa jornada. Um mergulho numa cachoeira ou atravessar correntezas. Sair de casa com pressa de chegar e voltar porque esqueceu de trancar a porta. Sobrevoar uma cidade alagada num helicóptero ou ficar sem gasolina num jipe no meio do deserto. Andar dias a pão e água, e de repente jantar numa mesa servida a marajás. Estar certo de que surgirão dúvidas, e duvidar de todas as certezas (inclusive a que diz respeito às dúvidas). 
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Enquanto se escreve uma dissertação ou tese, nos deparamos às vezes com a dura tarefa de evitar certas investidas que parecem justamente as mais interessantes, mas que podem nos desviar do rumo e causar perdas de tempo que não teremos como recuperar. Mas tem hora que isso pode ser justamente o que o atarefado pesquisador está precisando, por razões mil que ele próprio desconhece. Em dose moderada, tais leituras podem ser pausas importantes para retomar o fôlego, ou mesmo guardar inspirações inesperadas. Ou mesmo ser aquele tempo que se perde quando precisamos recobrar a perspectiva e lembrar que nem tudo gira em torno da bendita pesquisa. Como era "difícil" pesquisar n'O pasquim, em que absolutamente tudo era interessante e divertido. A tentação para esquecer um pouco o tema, as entrevistas com os músicos, e dar uma sapeada em tudo era enorme. E quantas vezes tive que conter, na verdade tive que sufocar o riso que queria brotar em meio ao silêncio da hemeroteca... e outras vez, humanamente, não consegui e veio a risada, meio abafada, ou eventualmente solta quando não havia nada além de mim e pasquins.
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Em tempo, o site Memória Viva está disponibilizando as primeiras páginas de várias edições do jornal, confiram aqui.

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