Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

18 de março de 2012

Elis, pimentinha nada: era fogo!


 Por razões que não precisam de explicação, Elis Regina foi não só a melhor, mas também a mais importante cantora da história da MPB. Mas se fosse tentar explicar, diria que nela estão constelados, numa intensidade sem igual, os elementos que permitem chegar a esse juízo: sua voz, sua técnica e sua musicalidade, sua presença de palco e seu desempenho no estúdio, sua interpretação "de corpo inteiro", sua ousadia e personalidade, seu sucesso espetacular, sua atuação política, a formação de seu repertório e os compositores que lançou, o modo como contruiu sua carreira e sua obra, e poderia continuar indefinidamente. O apelido "pimentinha" lhe caia bem, mas ela, de fato, era fogo! 
Difícil decidir por onde começar na hora de homenageá-la. O bom do blog é que é possível ir acumulando links, textos e documentos em vários tipos de mídia, e foi isso que resolvi fazer.

 1)Idealizada a partir de entrevistas com homens músicos, produtores, compositores e, sobretudo, falantes, “Eles & Ela – Tributo a Elis" é uma série em três episódios que destaca alguns dos mais importantes aspectos da carreira da cantora;
 2) Íntegra da entrevista concedida por Elis a O pasquim em 1969. Íntegra da entrevista de  Elis ao Folhetim em 1979; 
 3) Link para o blog Memória Elis, muito bem feito;
 4) Entre tantos encontros de Elis com Milton e o Clube da Esquina, um momento marcante foi a participação dela no disco Os borges (1980) cantando Outro Cais, escrita pelo Marilton e pela Duca Leal (a história tá contada no livro do Márcio Borges).


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Num pequeno arroubo de nostalgia, lembrei das primeiras linhas que escrevi sobre Elis como pesquisador. Estava entre surpreso e chocado ante o impacto da leitura do Balanço da bossa, em que Augusto de Campos literalmente detona Elis. Foi tarefa difícil entender e contextualizar sua crítica, situando-a nos embates daquele tempo. Mais difícil encontrar uma forma de desmontá-la sem recair em argumentos esquematizantes, ou deixar vazar o incômodo que tinha motivações altamente subjetivas. Creio que fui bem sucedido na primeira tarefa, mas na segunda não fiz mais do que tangenciar alguns pontos já indicados em outros trabalhos e pinçar o traço elitista que só muito tempo depois consegui explorar com mais consistência. Vivendo e aprendendo a jogar...

"(...) Usando como exemplo a cantora Elis Regina, [Augusto de Campos] condena o canto melodramático e exagerado. Para ele, tal postura estaria contrariando o ideal de concisão e precisão da interpretação joãogilbertiana. Para um crítico favorável a Elis, a ênfase gestual e o excesso de efeitos vocais empregados pela cantora procuravam imprimir às canções uma alta dose de emocionalismo, aí identificados ao cantar “popular”, “autêntico”. Seria um elogio ao canto afro-brasileiro de “força primitiva” que “o disco e o rádio negaram valor artístico”[1]. A questão da interpretação tornara-se um ponto chave dos embates estéticos, e alguns emepebistas estavam aí rompendo claramente com as proposições bossanovísticas. Esta “teatralização da canção”, executada de modo a apresentar letra e voz combinados a gestos e ações, tornara-se comum em peças teatrais e programas de televisão, operando como uma “coreografia do engajamento”[2]. O fino da bossa e outros do gênero serviram assim como espaço de adaptação da MPB ao público de massa, testemunhando a transição do intimismo ao épico[3]. Esta discussão ressalta por contraste um certo elitismo que pairava nas colocações do poeta concretista, que rejeitava então procedimentos vinculados exclusivamente à cultura popular. De fato, no projeto da vanguarda não cabiam as concepções então vigentes do nacional-popular."



[1] “Fino da Bossa”. Realidade, São Paulo: Abril, n º 5, ago. 1966, p.10.
[2] Ver, por exemplo, a análise da fusão dos aspectos visuais e sonoros na interpretação de Maria Bethânia para a canção Carcará, em CONTIER, Arnaldo. op.cit., p.36.
[3] PELEGRINI, Sandra Cássia Araújo. Ação cultural no pós-golpe: um destaque à produção musical contestadora. in: História e Cultura. Ponta Grossa: UEPG/ANPUH-PR, 1997, pp.49-64.

6 comentários:

  1. Luiz,

    Bacana demais a entrevista do Pasquim. De fato, a fama da Elis era de ser terrível, mas o legal é que ela já tinha tomado consciência e estava trabalhando nisso. Outra coisa bacana é que fica claro o quanto ela era aberta para o novo ao mesmo tempo em que reverenciava o tradicional. Se por um lado ela foi uma dos “abre alas” da famosa “passeata contra a guitarra elétrica”, na entrevista ela admite que Caetano (e os tropicalistas de tabela) deram um nó na cabeça dela e na percepção de música. Mais um ponto pra ela ao admitir isso. A nota engraçada é o tom machista da entrevista, quando é sugerido pelos entrevistadores que o remédio para problemas psicológicos de mulheres podem ser resolvidos com um amante ou gigolô. E por fim, dez pontos para Elis ao admitir ser torcedora do nosso glorioso Cruzeiro.

    Abraço,

    Renato

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  2. É Renato, Elis tem que ganhar muitos pontos então. O bom-gosto dela era indiscutível! A questão de gênero realmente têm grande peso nas relações sociais e na música não era nem é diferente. Toda a carreira da Elis está pontuada por isso, como fica claro lendo a biografia Furacão Elis, da Regina Echeverria, e também diversas entrevistas. O maior merito dela, pra mim, é que nunca se acomodava, mesmo no alto do pedestal em que a colocaram.

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  3. Aliás, falando no livro ele ganhou nova edição:
    http://livraria.folha.com.br/catalogo/1174827/furacao-elis

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  4. A Elis é a única cantora brasileira moderna que preservou a tradição do bel canto.Pensou se todos cantassem como joão gilberto,a arte de cantar seria uma monotonía sem fim.

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  5. Agora entendo porque a Elis de vez em quando tentava dar um tom intimista às canções ,Talvez fosse pra agradar pessoas como Augusto de campos e seus aliado.Mas graças a Deus a Elis tinha personalidade suficiente pra bancar seu talento sem freios.

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  6. A Elis foi criticada por setores da vanguarda como histriônica e exagerada,pra depois ser malhada por ser uma cantora técnica demais e fria.Afinal quem estava certo?Com certeza a Elis, que pra mim é a cantora mais completa ,entre as nacionais e internacionais,vivas e mortas.

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