Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

1 de fevereiro de 2012

OCUPAI, OCUPAI

Não costumo tratar de meu próprio trabalho como compositor neste blog porque não é essa sua função principal, mas em certas ocasiões me permito fugir à regra. Hoje é o caso.
Comentei em postagem anterior (O burguês e a marchinha, leia aqui) que "(...) Dialeticamente, a atitude do burguês não apenas aumentou o prejuízo político e simbólico dele como foi o estopim que botou fogo no paiol da criatividade dos músicos belorizontinos (...)". Em função disso o prazo foi estendido por mais algumas horas e ao final, segundo os organizadores(Banda Mole + CRIA) havia 52 marchinhas inscritas. Eu mesmo achei "(...) Muito bom participar dessa grande celebração que mostra a vitalidade da nossa cena musical junto com meu parceiro Pablo Castro.Justamente a nossa 1a. marchinha, começada um dia antes dessa celeuma toda quando me veio a ideia do 'imperativo majestoso' (segundo o Pablo) Ocupai, ocupai"... Desse mote ligando Wall Street e BH, saiu o refrão e depois o resto da música, na raça, e o Pablo além de fazer uma música sensacional teve ótimos achados para a letra. Graças ao entrosamento de tantos anos, fizemos tudo em um dia e gravamos, na minha casa mesmo, e a inscrevemos dentro do prazo original.
 O resultado foi divulgado hoje (31/01/2012), em torno de 24 horas depois do prazo de inscrição extendido, com as 10 classificadas, sem maiores detalhes. A nossa não foi classificada entre elas. Não quero aqui, que fique claro, colocar em questão a qualidade das eleitas. Isso competiu justamente ao júri, cuja composição continuo a desconhecer. É preciso apenas reconhecer que alguns cuidados, algumas atenções em relação a procedimentos adotados, asseguram o mérito, tornam o processo mais fácil de avaliar e reduzem as sombras de dúvidas sobre os resultados. Ah, mas é carnaval, alguém pode dizer... ah, mas se tem até prêmio em dinheiro, posso dizer...enfim, acho importante melhorar, até porque esse já repercutiu tanto. Ah, mas você leu o regulamento...li. Dava pra ver essas falhas?...dava...então porque inscreveu? Porque não é por isso que eu faço música, e nem o meu parceiro.
Fiquei aqui pensando muito nessa história toda, até pq fui eu que comecei a letra e botei a pilha pra gente fazer a marchinha. Até insisti com o Pablo pra ele mandar pro blog do Nassif, achei que tinha tudo a ver, ele relutou porque era uma gravação caseira, mas enfim cedeu à minha insistência (olha aí). Vou transcrever aqui o que mandei pra ele depois de ver o resultado: "Nos envolvemos e nos comprometemos 100% com a nossa criação, o que de tudo é o mais importante. O concurso foi estimulante, quem sabe virão outros, com processos aperfeiçoados. Senão, pegando emprestado do Vandré, "a vida não se resume em..." concursos. As suas interrogações eu faço minhas também, pq são parte do que nos define e essa postura marca nossa parceria sempre. Agradeço todo mundo que gostou e elogiou a nossa Ocupai, ocupai. Muito me orgulho de tê-la feito com vc, e quiçá ela possa ressoar por muitos carnavais e sair por aí arrastando a liberdade. Valeu!"

Sem mais delongas, vamos ouvir a música que é o que realmente interessa...

Pós-Escrito 2016
Aproveitando a ocasião do aniversário de Belo Horizonte, fui revisitar algumas postagens do blog e me dei conta que Ocupai, ocupai, uma canção tão umbilicalmente ligada à cidade, não estava inserida no contexto da página específica que criei em 2014 para falar da minha produção autoral. Lembrava de já ter escrito sobre ela e decidi recuperar o texto, e ver se caberia também fazer algum acréscimo. Creio que terei que fazer vários. A ocasião é propícia. Estamos próximos do Bota Fora Lacerda, por exemplo, ainda que não esteja saindo da maneira que deveria ser. Ainda não tiramos a lama do entorno. Também é legal constatar que o Concurso de Marchinhas seguiu firme e forte, cada vez mais prestigiado. O Pablo foi se esmerando a cada ano e acumulando êxitos com suas marchinhas [é possível ouvir todas pelo soundcloud, aqui], inclusive no próprio concurso. O tempo, com às vezes lhe é facultado, encarregou-se de levar o assunto a melhores termos. 
Dito isso, vou me ocupar da canção, que é o que mais interessa. A nossa preocupação maior era evitar fazer uma letra muito "datada", no sentido de se apegar muito a fatos e nomes em baila no momento da criação, caminho tomado por muitas marchinhas. Tomar os políticos locais como foco era praticamente inevitável naquele momento. O imperativo "Ocupai" era uma forma de ir um pouco além, fazendo essa ligação com as mobilizações espalhadas pelo mundo que tinham como mote a ocupação dos espaços públicos. Ao mesmo tempo era a brincadeira da sonoridade coincidente como o inglês Ocupy. Fica pra depois fazer um levantamento desse tipo de expediente, lembro de algumas jogadas assim com o francês, feitas pelo Aldir, pelo Chico... se os leitores quiserem deixem sugestões, será ótimo. Pra mim funciona demais a coisa do mote, depois de achá-lo o resto é muito mais fácil. Mas essa letra tem uma situação interessante, que foi termos realmente dividido sua feitura, ao invés do que estava consagrado na nossa parceria que era o Pablo fazer a música e eu a letra, fosse qual fosse a ordem. Ele introduziu a variação do banqueiro - intensificando a referência a Wall Street - no refrão e fez quase tudo nos versos, com algum ajuste da minha parte no trecho das avenidas, fazendo com "tira a lama" um pequeno chiste com a então usual alcunha do prefeito Márcio La-merda, sem deixar tão evidente. Conseguimos elencar elementos icônicos da paisagem da cidade e envolvê-las na trama narrativa, evocando a imagem da multidão se espalhando pelas ruas.  No todo, um conjunto bem compacto e coeso. Aproveito para incorporar uma gravação mais bem acabada, feita alguns dias depois da anterior.





Ocupai, ocupai (Pablo Castro / Luiz Henrique Garcia - 2012)

Ocupai, ocupai
as ruas da cidade
mil sandálias no asfalto
arrastando a liberdade

Ocupai, ocupai
as ruas da cidade
o dinheiro do banqueiro
corrompeu a autoridade

Do meio-fio pra avenida
a torcida acredita que a partida é disputada todo dia
gente que não teme a alegria
e a esperança é o que sacia
essa vontade de cantar

Afonso Pena ao meio-dia
tira a lama do entorno
sem Contorno a transtornar
Do coreto ao Pirulito
só respeitamos apito que não queira controlar
[vamo ocupá]

Repete refrão...












Nenhum comentário:

Postar um comentário