Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

20 de janeiro de 2012

You belong to me - uma canção, vários tempos

Acompanhar uma canção através do tempo, tendo contato com diversas gravações e intérpretes, além de ser um exercício instigante, é um estímulo à sensibilidade musical e histórica. Contrastando versões, é possível aprender muito sobre mudanças nos estilos de interpretação, nas concepções de arranjo, nas tecnologias de captação de som, e como estão relacionados a uma dada época, a um contexto específico que influencia a produção, a circulação e a recepção da canção em questão. Algumas delas passam de geração em geração, e mesmo que evoquem sentimentos parecidos, são sempre re-significadas diante de situações novas, e lhes dando, como disse meu caro amigo Pedro Munhoz (colaborador dessa postagem), novo fôlego. Uma singela canção como essa - You belong to me ( Pee Wee King, Chilton Price, and Redd Stewart) - atravessou mais de meio século, nas vozes de artistas tão diferentes quanto Sue Thompson (a 1a. a gravá-la em 1952), Jo Stafford (versão de maior êxito comercial, chegando ao topo das paradas nos EUA e Reino Unido, ainda em 1952),  Patsy Cline, Bob Dylan, Judy Garland, Ella Fitzgerald, Ringo Starr, Carla Bruni e Rose McGowan (que a canta na abertura do filme Planeta Terror, de Robert Rodrigues).
Embora a canção seja do início dos anos 1950, o Pedro comentou que o ápice da carreira da Jo Stafford foi durante a Segunda Guerra (ela chegou a cantar para os soldados, explica). Daí percebi que a letra remete a um enredo de aventura, exploração, viagem, que é bem a 2a. Guerra mesmo (vista por um prisma romantizado, lógico) como se a cantora falasse para o soldado, você está ai, vendo o mundo, mas lembre-se, você pertence a mim. Basta ler os 1os. versos:

See the pyramids along the Nile
Watch the sun rise on a tropic isle 
Just remember darling all the while
You belong to me

Resolvi apurar, porque muitas vezes a canção pode ser composta num momento e gravada depois. Na mosca. Descobri que a autora original foi Chilton Price, que trabalhava numa rádio do Kentucky, junto com King e Stewart. O título então era "Hurry home to me" (a métrica é a mesma) e era justamente um pedido para o amado soldado voltar pra casa. Enquanto Price era uma compositora amadora, os outros eram músicos já estabelecidos mercadologicamente. Não fica claro pelas fontes se chegaram a realizar mudanças, apenas que não deve ter sido nada digno de nota, e que os créditos vieram por terem se ocupado da divulgação da canção, como se depreende do depoimento da autora ao Cincinatti Post em 2002. Price não guarda mágoa, relatando que os outros dois lhe proporcionaram um alcance que não teria sozinha. Sua postura generosa, no entanto, não abona a incorreção que é preciso corrigir, e também revela um dos grandes vícios da indústria fonográfica quando se trata de autoria. Esse é um padrão generalizado, inclusive em tintas bem mais turvas, como ocorria na compra de alguns sambas.
Seja como for, modificada a canção fez sucesso nos anos 1950. Vale considerar que a partir daí os EUA mantiveram tropas estacionadas em todo o globo em razão da Guerra Fria. Mas parece mais justo entender que a letra poderia ser apropriada fora do momento que a inspirou. Podemos imaginar como essa canção foi passeando "de ouvido em ouvido". Da leitura country da Patsy Cline, por exemplo, pode ter derivado a versão do Dylan, sugere o Pedro. Eu a conheci cantanda pelo Ringo, num momento em que me interessava muito mais o repertório dele do que essa arqueologia das gravações esboçada agora. Outro caminho passa pelo cinema, já que ela foi definitivamente incorporada ao repertório de Hollywood... além de Planeta Terror, Pedro recorda que a versão do Dylan está em Assassinos por Natureza, do Oliver Stone, e por aí vai. Interessante que a versão do Ringo busca "atualizar" a canção, no início dos anos 1980, enquanto a cantada por McGowan tem uma arranjo "retrô", mas insere altas doses de sensualidade, uma vez que sua personagem era uma stripper (numa espelunca, lógico). Para encerrar, não inseri todos os vídeos aqui para não sobrecarregar, basta clicar no nome do intérprete que o link fará o resto (ao menos por enquanto...).

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