Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

28 de dezembro de 2011

Travessia de Björk

Procurando material que foi utilizado em outra postagem, acabei encontrando essa versão da Björk para "Travessia", 1a. parceria de Milton Nascimento e Fernando Brant, canção que os colocou em primeiro plano no cenário da MPB e que uma hora dessa merecerá uma postagem exclusiva. Curiosamente, acabei de comentar o disco Chico e Caetano juntos e ao vivo (ver aqui), observando como o Caetano se apropria das canções do Chico. A versão dela é emocionante, no meu modo de ouvir, porque ela parece absorvida por "Travessia", como intérprete. "É como se a canção nascesse de novo", nos dizeres do amigo e colega historiador Mauro Eustáquio. Ainda mais tocante é ouvir a voz dela se aninhando na música, como um bebê se aproximando das palavras e de sua sonoridade. Seu gesto se torna ainda mais significativo pelo fato de haver uma versão da letra em inglês (autoria de G.Lees) que foi gravada pelo próprio Milton no LP Courage (1969). Um interesse extra é acompanhar o debate sobre a interpretação dela nos comentários do youtube. Alguns reclamam da pronúncia, outros a celebram, naquela intensida típica das trocas de opinião via web, que motivaram o autor da postagem a comentar: "Gente! Não postei o video no intuito de julgar o jeito em que Björk canta em português. E sim mostrar a sua profunda admiração pela musica brasileira". Claro. Alberto Campos Júnior comento que "já conhecia a gravação dela e também uma entrevista em que cita Elis Regina como referência de cantora, porque cantava com sentimento mesmo sem ela entender o sentido do que dizia". Tudo isso dá boas pistas para pensar sobre os trânsitos culturais, as interpretações e também sobre como a música é consumida via internet. Falei muito sobre isso em minha tese de doutorado, mas para resumir pinço esse belo trecho do Elaborações musicais de Edward W. Said:
“(...) [transgressão é] aquela qualidade que tem a música de viajar, atravessar, ir de lugar em lugar em uma sociedade, ainda que muitas instituições e ortodoxias tenham tentado confiná-la”.
Versão da Björk
Versão do Milton no Courage

Um comentário:

  1. Nota Alberto Campos Júnior que a gravação de Sarah Vaughan também impressiona. Também acho!
    Segue o link
    http://www.youtube.com/watch?v=X3sLxtAW0nY

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