Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

27 de outubro de 2011

Na estante agora



Genial, escancarado, "sujo", direto no estômago e na alma! Nessa autobiografia Mingus se expõe muito, e junto com ele uma sociedade e seus conflitos étnicos, políticos, econômicos, geracionais, sexuais e culturais. De forma instigante, ele constrói a narrativa na terceira pessoa, deixando o próprio corpo para tratar de si como se fosse um outro, o "seu garoto", mostrando, desde a mais tenra infância, sua luta para literalmente sair da sarjeta.


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