Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

12 de fevereiro de 2018

Está Extinta a Escravidão? Samba e História na Sapucaí


Eu tinha sacado alguns sambas-enredo e sentido que o desfile das escolas do Rio desse ano seria diferente, de enfrentamento. Se de um lado não cabe a desmedida visão de ver aí uma redenção infalível que vá imediatamente mudar o cenário do nosso dia a dia, também não se pode menosprezar a força simbólica que tais manifestações retém. 

Vi o início do desfile da Paraíso do Tuiuti e senti firmeza. Mas Morfeu foi mais forte. Agora estou assistindo ao VT. Tá dando gosto. Descubro que o colega historiador Léo Morais foi assistente do carnavalesco Jack Vasconcelos e depois destaque como 'Presidente Vampiro'. Para uma síntese, ver a matéria, aqui, e as fotos

Tantas vezes houve sambas com enredos grandiloquentes e pitorescos, que motivaram o irônico apelido se 'samba do criolo doido' [já fiz uma postagem tratando do assunto, aqui], mas com o tempo uma maior acuidade historiográfica começou a se fazer presente. Eis aí um belo exemplo, um samba-enredo competente, um desfile de encher os olhos e ainda dar o recado. Eu não sou estudioso do carnaval e nem crítico de desfile de escola de samba, mas dentro das minhas limitações me pareceu tudo muito coeso, os temas das alas, a tradução visual do enredo, a força musical do samba puxado pelo trio Nino do Milênio, Celsinho Moddy e Grazi Brasil, que como acabei de apurar tem entre seus compositores Moacyr Luz, grande craque [aliás, covardemente assaltado antes do desfile, aqui]. Vale dar uma olhada no depoimento dos compositores [aqui] . Selecionei um trecho do que disse um deles, Aníbal Leonardo:

"A escravidão é a forma de opressão mais vil que existe, que vem desde as formas mais antigas de organização da sociedade. No caso do Brasil, isso se reflete nas enormes desigualdades que vivemos até hoje, e por isso o samba bate tão forte no seio do nosso povo, pois a exploração abusiva do homem pelo homem se dá inclusive fora da escravidão".

Acho importante ainda trazer impressões dos componentes da escola sobre o samba, que nitidamente empolgou a todos [aqui]. Ariolana Conceição, moradora da comunidade do Tuiuti e membro da velha guarda da escola, disse que: 

– O samba é maravilhoso. Só tenho ouvido elogios do nosso samba-enredo. As pessoas dizem que é o melhor, e é mesmo! O melhor é que ele exalta a nossa raça, as nossas origens conta a nossa história, do negro e do Brasil. Retrata a Africa em poesia, tem ritmo, tem balanço, tem melodia e tem emoção acima de tudo. Ficará para história como outros sambas-enredos.  


Lembro da história da ave atirar seus filhotes em queda, para eles aprenderem a voar. Talvez entre as fábulas colhidas por Da Vinci, narrada no primeiro livro que definitivamente amei na vida.Esse pensamento escapa (ou decola?) agora enquanto penso no enredo da Paraíso (olha pra cima, de novo) do Tuiuti (um pássaro!). Será um grande desconhecimento da história dos sambas-enredo se agora alguém se dá conta de seu teor político, seu engajamento nas questões mais urgentes e também nos dilemas mais profundos da nossa existência enquanto brasileiros. Não, não está aí novidade alguma.
Então onde está o voo do Tuiuti?
Me arrisco a considerar que na forma com que articulou o conhecimento do passado com a interpretação do presente, e simultaneamente a tradição de sambas-enredo com alguma inovação. O samba parece que deu nó em pingo d'água, porque consegue unir os macetes formais costumeiros do samba-enredo, como os refrões poderosos, as rimas internas, e o inventário do vocabulário e do imaginário afro-brasileiros com sacadas atípicas que lhe dão ares contemporâneos, como o elaborado jogo poético com as cores, imagens rebuscadas como a da lua atordoada, mas a sofisticação é dosada de maneira a não torná-lo pedante. Ao fazer a leitura crítica do fenômeno da escravidão, incluindo aí a sua abolição no Brasil, consegue dialogar com a tradição dos enredos sobre a História do país mas dá um salto qualitativo porque está afinado a descobertas historiográficas que costumam passar longe da avenida uma vez que dificultam o ato de exaltar. Ao descortinar o engodo da Abolição, tão celebrada em tantos carnavais, o enredo efetiva o laço com o presente enunciado no título em forma de pergunta. Irresistível a analogia que tenho a fazer: eis aí um Samba-Problema, indo ao encontro do brado metodológico da Escola dos Annales. Certamente os historiadores professores levarão esse samba e o desfile para as salas de aula, do fundamental ao superior, e terão aí um rico material para discutir o tema da escravidão, sua historiografia e seus sentidos no tempo presente. É digno de nota que a Escola conseguiu esse feito sem recair em anacronismos equivocados, ao apresentar uma leitura crítica sob a luz de conhecimento apurado sobre o fenômeno da escravidão para pensar sobre as condições de trabalho ao longo da História e a atualidade do "cativeiro social". No documento chamado Livro Abre-Alas (que é uma espécie de catálogo com os projetos dos desfiles das escolas) consta a bibliografia utilizada pelo carnavalesco e seus auxiliares [aqui].
Ao pensar a escravidão em sua historicidade, ainda, o enredo desdobra o que a letra do samba só insinua, dando perspectiva para refletirmos sobre a exploração do trabalho humano em diferentes contextos. Talvez haja inclusive um eco, intuitivo ou não, da dialética hegeliana do senhor e do escravo, na constatação de que a vida lamenta por ambos. E aí, um trunfo quiçá escondido, o ás na manga, um zap no identitarismo, porque a interpelação não se dirige apenas aos negros escravizados historicamente no Brasil, mas aos escravizados de todas as cores, tempos e lugares, o "irmão de olho claro ou da Guiné", todos de "sangue avermelhado". Ao atualizar o sentido da luta contra a escravidão como luta de libertação de todas as formas de exploração do trabalho, o Tuiuti canta fora da gaiola do cativeiro social e alça voo diante do precipício.


O desfile


A letra do samba, de  Cláudio Russo / Anibal / Jurandir / Moacyr Luz / Zezé:

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?
G.R.E.S Paraíso do Tuiuti

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

31 de janeiro de 2018

1a. c/ 7a. A arte carnavalizada de Glauco Rodrigues

Assisti com muito interesse ao documentário "Glauco do Brasil", sobre a vida e obra do artista brasileiro Glauco Rodrigues. Permanece ainda relativamente inexplorada academicamente falando a relação entre a música popular e as artes plásticas, especialmente se excetuarmos o caso da Tropicália. Fiquei particularmente ligado no depoimento do João Bosco remontando às artes das capas de Caça à raposa, Galos de Briga e Comissão de Frente. Em sua fala ele chama atenção para a afinidade do trabalho do artista com o repertório que vinha construindo, especialmente em parceria com Aldir Blanc, a partir do conceito de carnavalização. 


Achei relevante esse apontamento para contrapor essa opção estética (na música popular e nas artes visuais) ao atual posicionamento sectário que vem sendo expresso através do entendimento raso do conceito de 'apropriação cultural'. Há uma relação entre essa diferença de concepções sobre a Cultura e a conjuntura social e política em que se apresentam. Nos anos 1960-70 havia a tentativa de imaginar um país e de gestar um projeto nacional, e nesse intuito recorria-se invariavelmente a alguma forma de mescla para embasar-se. A política e o debate cultural atuais tem gravitado em torno de outras formas de construção das identidades, por vezes supra e por vezes infra nacionais. Ocorre que muitas vezes essas formas reivindicam um grau extremo de pureza e separação, distanciando-se da possibilidade de traçar destinos comuns e visões de mundo compartilhadas. Me parece urgente retomar o fio da meada da brasilidade a partir das propostas estéticas e política desenhadas a partir do reconhecimento da hibridação cultural como nosso traço distintivo. 





Da apresentação oficial no You Tube:
"Glauco do Brasil é um documentário de 90 minutos, que retrata a vida e a obra do pintor Glauco Rodrigues. Gaúcho de Bagé, Rio Grande do Sul, Brasil, Glauco é considerado por teóricos, críticos e artistas nacionais e internacionais um dos principais pintores da Pop Art na América Latina. A trajetória de Glauco Rodrigues é retratada através de uma série de entrevistas, depoimentos, imagens de arquivo e captação de novas imagens dos cenários no qual Glauco Rodrigues vivenciou e se inspirou. O documentário possui entrevistas com artistas e intelectuais como: Nicolas Bourriaud, Ferreira Gullar, Gilberto Chateaubriand, João Bosco, Luis Fernando Veríssimo, Camilla Amado, Frederico Morais, entre outros."



27 de dezembro de 2017

Eldorado Subterrâneo da Canção - Ponteiros

Meu parceiro Pablo Castro, assíduo escrevinhador dessa página, depois de longo hiato volta com a série "Eldorado", agora trazendo também análises de bolachas completas, remetendo assim a outra seção consagrada aqui do blog. 


Vou aproveitar a última semana do ano e fazer algo que tinha me prometido: escutar atentamente os discos lançados em 2017, e falar um pouco sobre alguns deles.
Começando pelo magnífico disco de estréia da compositora, pianista e cantora Pamelli Marafon , chamado Ponteiros. Uma obra inusitada que apresenta uma criadora inquieta, possuidora do ofício de musicista com notável domínio do piano, dos arranjos , das harmonias intrincadas e inventivas, e de melodias às vezes simples, às vezes cromáticas, mas sempre cuidadosas. Percebe-se em Pamelli a filiação àquele inominado gênero de cancionistas, que , embora munidos até os dentes de idéias puramente musicais, conseguem achar o fio condutor da letra como norte tanto para a melodia quanto para a harmonia.

Pamelli tem uma assinatura tanto como letrista quanto como compositora, e a relação dos dois vetores é muito consistente, com a invenção formal como tônica das 10 faixas, 9 canções e um choro instrumental altamente intrincado que prova a veia de arquiteta musical da paulistana que vive em Minas.

"Viver é se perder no emaranhado de você no sincopado de um desejo arbitrário" , como diz a performática " Eu Tenho Problemas com Regras" , alternando um roquinho 6/8 com um baião que, na aceleração da melodia, faz com que a conclusão de uma reflexão que tende ao lirismo se resolva numa condensação de sentido que figura, de algum modo , como resposta às indagações de inadequação do seu eu lírico.


Tango da Lua seja talvez a canção mais redonda, mais "convencional", com melodia envolvente, e sessões mais ortodoxas de A, B, introdução, coda, etc. " Onda de azar mais sete vida / por seis vidas procurei você / nem na sete encontrei
dou risada na oitava sendo a mais feliz escrava do meu reino coração" diz a letra que projeta um sonho lúdico um sentimento romântico, tão raro hoje entre cantautoras : "num atalho do caminho lá pra irará / tinha o bosque solidão e você o anjo amigo que roubou minha alma e coração meu canto meu sonhar
fez da vida um samba bom e me deu anel de vidro pra sonhar" .


Aliás, a escrita de Pamelli não poupa a expressão "minha alma", ícone do lirismo que parece ter sido varrido para debaixo do tapete de nosso espírito do tempo. Assim ela fala de Minas Gerais, onde, "não sei por que é tão bonito / sobe desce o morro esse chão deu tanto ouro / sobe desce a vida na ladeira da rotina trabalhar" , e muito sinceramente declara que "canção é o que liberta a minha alma / todo dia é dia de labuta e poesia
faz rima de dor com alegria pra poder continuar".


A canção Água, que fecha o álbum, me lembra do conceito de "Think About Your Troubles", de Harry Nilsson, que fala do ciclo alimentar; Pamelli fecha o ciclo da água sem poupar seus usos mais sujos, se distanciando de qualquer possível idealização purista da mãe água. O refrão, que podia ser cantado mais vezes, reza : " água lava a sujeira do lugar / mas quem que vai lavar água do mar? " .

A sonoridade do disco tende à canção de câmara, tão profícua no que chamo de Eldorado Subterrâneo da Canção Mineira, especialmente no trabalho de nomes como Rafael Martini, Rafael Macedo, Alexandre Andrés, com a preferência pelas madeiras, flautas, clarinetes, também acordeons, sempre com o piano de Pamelli para dar o fio, e com as cordas preciosas do parceiro e arranjador Tabajara Belo, que arrebenta nos violões, guitarras e bandolins e arranjos. A bateria e a percussão são escassas no disco, privilegiando os sutis mosaicos das alturas.

Acho lindo mesmo que uma cantora e compositora arrojada como Pamelli exista assim, meio que silenciosamente no Brasil, fazendo um disco como esse meio que sem ser notado. Porque o que ela revela é uma grande inventividade justamente no âmago do que tem sido sistematicamente boicotado na cultura musical do Brasil: autenticidade e sinceridade nas letras, criatividade na música, fruto de um mergulho profundo nesse limbo que é fazer canção com esse grau de artesania, em português. O piano dela fala muito , e não a deixa mentir ! 

Nota do Editor:
O disco pode ser ouvido pelo Spotfy [ouça aqui]
Posto aqui também vídeos com algumas das canções que figuram no disco,
com outras roupagens. 






10 de dezembro de 2017

INQUIETAÇÃO

Se muita coisa não correu como eu queria neste ano de 2017, tenho muito o que celebrar nas minhas atividades musicais. Compus muito, com vários e novos parceiros. Isso propiciou uma diversificação de estilos, de processos e de trocas, enriquecendo enormemente minha atividade de criação. E tudo isso acompanhado de preciosas amizades, complementando a mútua aproximação artística. Para mim uma coisa anda junto da outra, parceria junto com amizade é fundamental. Uma dessas coisas que aprendi sendo fã de Clube da Esquina. Alias, poucos eu conheço que são tão fãs quanto esse meu jovem parceiro, Artur Araújo, cearense que trilhou a estrada pra Minas e já pode se considerar mineiro por adoção. Além de talentoso, ele é muito dedicado à carreira, e vejo ele cada vez mais seguindo os rumos que a música lhe propõe. Ele tem esse dinamismo, essa busca. 
Não foi por acaso, assim, que a primeira música que me mandou para que eu desse letra vinha nomeada como Inquietação. Conversamos para que eu pudesse me acercar dos sentimos e ideias que haviam influenciado a música. Entendi o espírito da coisa, ainda que não imaginasse ainda uma solução que pudesse partir do título sugerido. Achei a princípio até um tanto improvável que fosse possível incorporá-lo propriamente à letra. De todo modo, procurei, o quanto antes, encontrar o fio do novelo para puxar. Ultimamente venho recorrendo a um expediente que tem dado bons frutos, que é aproveitar textos já criados com a intenção de virar canções para aditivar a escrita de outras letras. Encontrei então uns antigos versos que tinham um clima noir, que falavam de becos e de personagens soturnas, intitulados 'Assovio'. Ali era o assovio, algo que se esgueirava, que passava entre pedras, que propunha a ideia de algum tipo de resistência, de desafio da ordem. Pensei que combinava com a música, algo misteriosa e grave, e que tinha um eco de While my guitar gently weeps do Harrison, algo que surgiu na conversa com o Artur. A melodia gentilmente sinuosa remete também ao traço, à grafia. Peguei daí o mote do grafite, insinuado num verso de Assovio mas que eu tornei central para a nova letra. Outra inspiração foi o universo imagético de The lamb lies down on Broadway, do Genesis, em que Peter Gabriel projetou nas letras seu alterego rebelde do aerosol, Rael. Assim fui construindo uma letra mais icônica, visual, em alguns momentos até dispensando os verbos, soltando palavras devotadas a passar o conceito básico. E finalmente encontrei uma forma de inserir a Inquietação do título no corpo da letra, transferindo para o protagonista o próprio ato de ver, ou melhor, de antever "os sinais". É a afirmação de que essa figura marginal tem a habilidade de sentir as tensões, desafiar o estabelecido e descobrir o imprevisto.



Clique aqui para ouvir pelo facebook , na versão apresentada no show

Inquietação
Música de Artur Araújo, Letra de Luiz Henrique Garcia

Entre trevas
Num beco frio
mensageiro,
assovio

Atravesso
bueiros vis
dos letreiros
neon desvio

Ao relento, comando só
Fiz grafite no muro cru
Apresento aos irmãos do pó
o cordeiro do dorso nu

sujem as mãos
abram desvãos
fujam dos cães
rompam grilhões

aos sinais
de inquietação (x2)

Ruas vastas
Parede em cio
Nada abate
As bestas que crio

Ódio, açoite
eu denuncio
Traço, faca
palavra, fio

Pestilento odor do fel
Feito lança me corta o ar
Fico atento aos sinais do céu
Vista alcança o que insinuar

Sujem...

aos sinais
de inquietação (x2)

Pestilento (volta)

sujem as mãos
abram desvãos
fujam dos cães
rompam grilhões
sujem as mãos de pó...

8 de dezembro de 2017

Equilíbrio e esperança

Mesmo onde aparentemente não, a cultura diz muita coisa. O uso do sarcasmo (e outros efeitos de linguagem) para nomear operações da Polícia Federal denota a transformação de processos internos que deveriam ser conduzidos na maior sobriedade em parte de um espetáculo armado cuja finalidade certamente vai além de apurar o que quer que seja, assumindo conotação política evidente a qualquer observador mais atento. Já disse isso antes. Agora volto ao tema diante desse circo armado pra cima da UFMG, com condução coercitiva do reitor, de sua vice, e outros professores da instituição, dia 06/12 último. Usar como nome "Esperança equilibrista", trecho da canção de João e Aldir, verdadeiro hino da Anistia, com patente escárnio sobre a nossa História, sobre a digna trajetória dos perseguidos políticos, e dos próprios autores da canção, denota exatamente a forma pouco comprometida com o Estado Democrático de Direito que a PF tem adotado, e não é de hoje. Não estou contra qualquer investigação, desde que seja feita dentro dos parâmetros legais. A defesa da Universidade Pública não é incompatível com a defesa da Justiça. Pelo contrário. Não há como construir Universidade, e de todo NADA público, sem Justiça. Não devemos confundir pessoas e instituições, e muito menos um órgão policial do Estado pode fazê-lo. O abuso desse expediente de condução coercitiva tem sido constante. A falta de cuidado com a forma como se investiga, considerando inclusive a presunção de inocência, tem consequências trágicas. É uma barbárie que o suicídio do Cancellier não baste. Nossa 'infraestrutura' jurídica toda ruiu e poucas são as vozes que se elevam para alertar sobre esses abusos, pois interesses políticos os mais reles estão à frente de tudo. Um país em que os próprios poderes constituídos, os representantes eleitos e/ou investidos dos 3 poderes da república, atuam de caso pensado enquanto comparsas para destroçar e privatizar o ensino, com a conivência ou participação ativa de uma parte considerável da população mais escolarizada pode ser outra coisa que não o que já somos?  Não há essa oposição binária entre impunidade e autoridade sem limite. Investigar sem responsabilidade e sem compromisso com os direitos e procedimentos adequados não tratará o fim da corrupção. Já trouxe as trevas, e com ela a caça seletiva às bruxas.

No mesmo dia realizamos um ato junto à reitoria da UFMG em repúdio à forma com que a PF conduziu coercitivamente os colegas, entre eles os atuais reitor e vice-reitora, desrespeitando os procedimentos devidos e transformando sua ação em espetáculo quando deveria ser realizada com a sobriedade que a gravidade das acusações exige. Comentei com vários colegas que estava certo que causaria indignação a João Bosco e Aldir essa apropriação desrespeitosa de sua canção tão emblemática e representativa para nossa história. As reações de ambos foram justíssimas e imediatas:

"Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.
Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.
Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar."
João Bosco

07/12/2017


"Depois da operação 'Esperança Equilibrista', João Bosco e eu esperamos que a Polícia Federal prenda também Temereca, Mineirinho Trilhão157, que foi ajudado pela Dra. Carmen Lúcia, e o resto, aquela escória do Quadrilhão que impera, impune, no Plabaixo. 

A nova Operação se chamaria 'De frente pros crimes' dos que sempre ficam impunes, com ajudinhas de Gilmares, Moros, PFs, etc.
Também esperamos que ninguém se suicide ou seja suicidado nessas operações, o que já é marca registrada das forças repressoras que servem aos direitistas do Brasil." 
Aldir Blanc, 07.12.2017

Tudo que gira em torno dessa apropriação indébita e escarnecedora sinalizam, a despeito, a centralidade da canção para a cultura e a vida social brasileiras. A repercussão da escolha dessa nomeação produz simultaneamente um embate simbólico inevitável e uma oportunidade para pensar a crise porque passamos. Nesse sentido, de imediato corroboro o que disse a colega Miriam Hermeto, do Depto. de História da UFMG na entrevista que segue:





O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco/Aldir Blanc)

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar

Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar...

Pra encerra, ouçamos a canção na interpretação consagrada da grande Elis Regina: