Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

13 de agosto de 2017

Muito barulho por uma cantiga

De modo impressionante a celeuma em torno de Tua cantiga (música de Cristovão Bastos, letra de Chico Buarque) perdura além dos dois, três dias que costumeiramente se gasta - e se desgasta - com esse tipo de embate. Talvez um dos encantos da escrita possa ser de que um texto ruim possa motivar a escrita de outro bom e vice-versa. Já se escreveu um bocado de coisas sobre a canção, entre os quais a aguda análise de Bráulio Tavares [aqui] em que eu destacaria a decantação da letra que revela toda a ourivesaria para "encaixar na métrica, na cadência, na prosódia, na acentuação, no timbre, no ritmo.", o opinativo texto de Flávia Azevedo [aqui], desencadeador de um bocado da discórdia ao dissertar sobre o 'amor datado de Chico' que escreveu 'largo mulher e filhos', ou o belo mexido [eu como mineiro posso assegurar que quando chamo algo de mexido estou elogiando] que Túlio Villaça fez [aqui] de suas próprias colocações versando especialmente sobre as relações entre estética/ética e a atualidade da canção em combinações com por exemplo a magistral decodificação operada por Mauro Aguiar "(...) é Shakespeare filtrado por uma mente borgiana emulando a sofrência num lundu impossível datado de 2017" (exclamação, eu diria no jargão enxadrístico) ou com a atenta escuta de Luís Felipe de Lima para a melodia ofídica de Bastos, que vai serpenteando e "(...) se equilibra muito bem entre a repetição e a diferença. Parece repetitiva, mas só parece. Tem muito veneno ali. Uma jóia.", entre outras preciosidades recolhidas.Recomendo fortemente a leitura de todos.

Garanto uma coisa, em nenhum outro lugar do mundo uma única canção de dois septuagenários poderá ser alvo de tanta disputa.  É cruel essa exigência da "atualidade", especialmente se projetada para sujeitos que, afinal, passaram dos 70. Como não ser datado sem também não ser forçadamente 'jovial', por exemplo? Sim, cabe identificar que o romantismo e o eu lírico da canção remetem a outro tempo e outras condições sociais das relações de gênero. Uma forma de olhar a canção é como inventário desses valores. Trata-se de exercício ficcional e não lição de moral e bons costumes. E nesse sentido a eficácia dela é justamente incorporar perfeitamente esse conteúdo patriarcal do amor romântico, recorrente nas cantigas de outros tempos com as quais ela dialoga. É pertinente problematizar, sim, mas para ser justa com o autor (como a boa crítica deve ser) não cabe essa de acusar Chico de ter 'se traído' (como fez Flávia, por exemplo), ou a cobrança de que submeta a estética a critérios 'atuais' do que deve ou não ser uma relação. E vale insistir na ressalva sobre o eu lírico e a natureza do que é o texto na canção, que obviamente comporta e comportará apropriações indébitas e imprevisíveis aos autores. É neste sentido inclusive que ser homens de seu tempo não os condiciona absolutamente - caso contrário todos os viventes de uma mesma época pertencentes a uma mesma camada social se expressariam de modo homogêneo.

Também o texto de Flávia perde de vista o movimento de Chico - e aqui junto de Cristovão Bastos - de revisitar as formas do passado. Uma canção romântica de época, feita por homens já bastante vividos, conhecedores do nosso patrimônio musical. Aqui ambos de mãos dadas seguem abraçando um projeto estético (e político) de longo arco que está no nascedouro da chamada MPB, aberto no diálogo entre os feitos da geração anterior de João, Jobim e Vinícius, e aqueles que lhes antecedendo plantaram as sementes da moderna brasilidade musical, como Pixinguinha, Noel, Ismael Silva, Cartola, entre outros gigantes. Ali se dizia que reverência e respeito aos inventores do passado não implicava em conservadorismo ou redundância.

Aliás, essas críticas que são sobre música sem falar nada de música tem esse grave defeito. Geralmente os comentários sobre canções que se expandem para além do universo de conhecedores mais zelosos costumam perder de vista a sua natureza mesma, a cópula entre o som e a palavra que gera um novo ser. Nessa celeuma toda de Tua cantiga, me entristece particularmente ver tratados inteiros que sequer mencionam o nome de Cristovão Bastos, autor da música - aliás, a melodia em especial demonstra seus predicados e qualquer um que se der ao trabalho de ouvir umas poucas vezes poderá passar dias na companhia dela, até ter seu 'ouvido interior' docemente 'assaltado' por ela. Claro a letra é o foco, claro, é do Chico. Mas tem gente aí escrevendo sem ter nem ouvido... e muita coisa poderia ser melhor compreendida com um pouco mais de atenção à música. Enfim, Cristovão Bastos merece todo nosso respeito, consideração e palmas. 

Desde a modernidade a atualidade a toda prova parece ser a cartilha, e efetivamente é o ditame do mercado que está na sua medula. Entretanto sabe-se que ela desencadeia contradições, entre elas um apreço por proteger partes do passado de sua própria fúria assassina, como recurso para garantir alguma estabilidade simbólica e, ao mesmo tempo, fornecer o parâmetro para o contraste que assegura a constatação da superação do que é 'datado'. É nessa brecha que se constitui um pilar de sustentação do arco referido acima, pois se a música popular parece ser toda organizada para o fugaz sorvimento dos acertos de temporada, paralelamente permite a constituição de acervos e coleções que transcendem - por razões umas evidentes, outras misteriosas - o império do imediato.  Curiosamente, ou até ironicamente, o ouvinte que rejeita a canção que não satisfaz sua expectativa narcísica é que é conservador e datado, esperando que o artista só lhe ofereça o que estiver assemelhado a si e ao que considera próprio de seu tempo. Aí não há espaço algum para diferença e alteridade - o contato efetivo com o passado não pode ser senão isso. Mais uma vez estamos no mundo do aquém-história, em que não vem muito ao caso considerar a experiência pregressa de outrem e nem tampouco  que qualquer nova expressão se insere em séries, repertórios, tradições. Talvez seja muito barulho por uma cantiga, mas por outro lado em meio a tanto barulho estamos precisando delas.

Lembrei-me agora, a tempo de terminar, que a primeira frase que escrevi sobre essa canção, rebatendo quem vinha dizendo que ouvi-la dava sono, que quem dormir ao seu embalo irá sonhar. 


7 de julho de 2017

Sonhos acordes 2 - Não sei se tu me sonhas ou se sonho pelos dois?

Na segunda edição da série Sonhos acordes, tenho o prazer de publicar aqui o texto do compositor, arranjador, pianista, professor, sujeito de vários predicados, Rafael Macedo [confiram aqui o soundcloud dele], a quem agradeço de milhão. Inspirado num papo que começou num relato do igualmente adjetivável Felipe José, amigo em comum, ele me saiu com esse sonho inesperado e espirituoso, cujos aspectos alegóricos, metafóricos, subliminares, líricos e surreais, deixo aos leitores e leitoras a diversão de decifrar. Sem mais.

Não sei se tu me sonhas ou se sonho pelos dois?
por Rafael Macedo

Seria muito pouco provável acordar dizendo que sonhei com Bach e esperar que alguém entre meus caros amigxs considere surpreendente esta seleção do meu inconsciente. Ainda que sob o pretexto de que ouvira, no sonho, uma obra inédita do nosso querido mestre.
Mas, imagine agora comigo, se desse eu um salto da cama dizendo à minha companheira (no meu caso é mesmo companheira) que sonhei com Tiririca e que no sonho ele me mostrava uma peça nova – sim, peça – para orquestra sinfônica e coro misto. Com um tinteiro em punho Tiririca gargalhava ao me contar a novidade. Mas não era aquela gargalhada jocosa e debochada, que ficou notoriamente conhecida em ramo que excede ao da música, como sabemos. O idiossincrático sorriso parecia vir de suas entranhas, afinal, revelava ser fruto de uma descoberta para o próprio. Seu sorriso talvez fosse o acúmulo de muitos e muitos dias antes daquele no qual nos encontramos em meu sonho: mas naquele dia, em especial, o rapaz estava com a mente pululante de ideias novas, de sonoridades nunca antes desejadas por seu espírito praieiro e cearense.
O quarto dele, em meu sonho, estava repleto de partituras suas e de outros compositores; rascunhos e pequenas notas também se embaralhavam naquela textura impalpável que desconfio ser comum a todos os sonhos. No entanto, além de uma nova relação com a música, o compositor parecia estar também enrolado nas páginas da história da arte europeia. Citava Shakespeare com a mesma naturalidade com que dizia se emocionar profundamente ao ver, um sem número de vezes, o quadro “Impressão, nascer do sol”, de Monet; principalmente porque aquela névoa o lembrava de uma tarde de Tiririca com Roberta, sua primeira esposa. Ambos enfeitiçados por aquele mar enfumaçado, enamorados pela primeira vez. Lembro-me de ter estranhado bastante aquela lembrança por parte dele, aquela mistura bizarra de França com Ceará. Enfim, só pode ser um sonho, pensei.
Seguindo naquele quarto, já levemente desesperado com situação absurda como essa, desconfiava de que realmente se tratava de um sonho – como muitas vezes me acontece. Ao mesmo tempo, e nem sei como, sentia que aquilo tudo não podia ser um sonho: estava escutando a voz dele com uma nitidez quase dolorida para minha lucidez onírica habitual.
No meio dessa sensação tive a impressão de que ouvira minha companheira sair do banheiro, ainda que simultaneamente tivesse certeza de que alguém entrara no quarto dele. Foi aí que disparou: “Rapaz, fiquei maluco com isso tudo depois que sonhei com um tal de João, Juan, uma coisa assim. Um cabeludo, aliás, um perucudo com a cara das mais sérias. E num é que o cabra tocava um instrumento dum tamanho, nunca vi igual, e com um som dum tamanho...do tamanho do instrumento mesmo. Depois de ouvir aquilo acordei outro, viu , Florentino”.



O famigerado sucesso Florentina, de Tiririca. E para fechar, o próprio Rafael Macedo, apresentando em 2012 no festival Palavra Som.


25 de junho de 2017

“Violas: o fazer e o tocar em Minas Gerais” – um evento para ficar na memória


Por Hudson Públio (Bolsa Iniciação Científica PRPq-UFMG)



Minha primeira contribuição para o blog é a breve descrição do evento que me marcou tanto como pessoa quanto pesquisador de música popular. Organizado por violeiros, pesquisadores, e outros envolvidos com o instrumento na linha da proposta de transformá-lo em patrimônio imaterial do estado e, também, nacional, o IEPHA em parceria com o BDMG cultural promoveu o seminário “Violas: o fazer e o tocar em Minas Gerais” nos dias 16 e 17 de Maio de 2017 [programação completa, aqui]. 

Informalidade – Essa palavra, utilizada aqui de forma positiva, é como melhor poderia ser descrito tal evento. Com o auditório do BDMG quase todo ocupado, composto por curiosos, passando por vários ouvintes vindos dos vários rincões de Minas, e alguns até de fora do estado, até os pesquisadores que estão lá para acrescentar aos seus trabalhos e/ou contribuir para a transformação da viola em patrimônio, desde o início percebi que aquele seminário seria diferentes dos tantos outros a que estou acostumado no ambiente acadêmico. No lugar das falas rebuscadas, carregadas de teorias e metodologias de pesquisa, aqui encontrei um ambiente destinado não só aos músicos, mas também a quem se interessa pelo tema presente. Violas, berrantes, rabecões, chapéus e demais vestuários típicos, entre outros, estiveram presentes junto com os ouvintes que ali estiveram. Não faltou música, é claro: antes de começar as mesas e nos intervalos, sempre houve vários dedilhando suas violas e arriscando interpretações de clássicos da música caipira. A informalidade que aqui coloco esteve presente também entre os palestrantes. Das três mesas do dia 17, somente a do turno da manhã se destinou a apresentações de pesquisas. Mas mesmo assim foi deixado de lado o rigor acadêmico, dando lugar a fala simples e coloquial dos palestrantes. Enquanto as do turno da tarde foram verdadeiras roda de conversa, onde as experiências pessoais contavam muito mais que os saberes científicos. Era o momento do encontro dos seis “fazedores de viola” na primeira roda, e dos violeiros consagrados na segunda: Téo Azevedo e Índio Cachoeira.

Improvisação – Sempre após os seminários/mesas (três no dia 17), o público presente se deleitava com canjas de viola. Muitas delas, fora da programação oficial, eram feitos em tom de improviso. Os violeiros do seminário da manhã resolveram cantar e tocar em conjunto a canção “Calix Bento”, adaptada a partir de um canto folclórico de Folia de Reis por Tavinho Moura, outros simplesmente puxavam o microfone para si e subiam ao palco para dedilhar e arriscar algumas canções. O que emocionou em todos esses momentos foi o fato dos violeiros se sentirem “em casa”, percebendo que aquele era seu espaço e que o público presente eram os seus típicos ouvintes do interior. João Raposo foi um deles: sua voz era pouco compreensível em sua canja improvisada, sem ensaio e aviso antecipado que iria tocar e cantar, mas isso não diminuiu sua apresentação. Pelo contrário, o que mais me emocionou e surpreendeu foi o seu desejo de contribuir não só com sua arte em fazer violas, mas também por mostrar que, mesmo sem dominar a “música”, faz parte desse universo que cada dia mais caminha para ser transformado em patrimônio estadual e nacional. E “improviso” também seja a melhor expressão pra explicar como o seminário “Violas: o fazer e o tocar em Minas Gerais” terminou: nas últimas canjas do dia todos foram convidados a participarem na plateia com suas vozes. Nesse momento foi apresentada para muitos ali presentes (eu, inclusive), a versão folclórica de Cálix Bento, chamada “Deus te salve casa santa”, com os tocadores e cantores parecendo que estavam em um típico cortejo de Folia de Reis. E nada melhor que terminar as canjas com uma canção composta por Téo Azevedo a partir de trechos do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e que foi extraída de uma compilação em disco chamada “Guimarães Rosa – Mineirada Roseana”.                                                            

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Nota do editor:
Para complementar a postagem, um pouco de música, claro!

TÉO AZEVEDO e a dupla VALDO e VAEL e a ORQUESTRA MINAS E VIOLA, apresentação no TEATRO BRADESCO



 Linda versão da maravilhosa dupla Pena Branca & Xavantinho para Cálix Bento:



Finalmente, uma versão telúrica de Deus te salve casa santa na voz de Clementina de Jesus:

21 de maio de 2017

Luiz Henrique Rosa, um xará com muito balanço

Por essas coisas que a gente nem sempre sabe porque, certos nomes às vezes passam ao largo da nossa atenção. Definitivamente não é fácil dar conta de tantos talentos, tanta produção discográfica, tantos grupos, compositores, instrumentistas. Considero que assumir essa limitação é antes de mais nada uma necessidade, para que não percamos a dimensão do desconhecimento que faz parte da vida, ainda mais no ofício da pesquisa. Sobra, por outro lado, a certeza de que sempre outra descoberta, uma nova vertente de alguma coisa, uma obra que ainda não se ouvi ou um disco que ainda não se conhecia. Esse pequeno prazer tive hoje depois que o amigo Greg Caz,  DJ novaiorquino que conhece muito de música brasileira (entre outras) colocou numa postagem minha de facebook sobre o tema dos aniversários uma versão de Parabéns pra você do LP Popcorn que Walter Wanderley dividiu com Luiz Henrique, meu xará. Embora o nome não me fosse completamente estranho (rsrsrs) me dei conta que não tinha maior noção sobre esse violonista e compositor catarinense, que desde a juventude na praieira Florianópolis já enveredava pelos caminhos da música e pelas ondas do rádio. No início dos anos 1960 migrou para o Rio e como tantos músicos populares da época, encontrou no balanço da bossa o veio para sua musicalidade. Como tantos dessa geração, partiu num voo para as terras do jazz, tocando e gravando com feras tanto de lá quanto de cá. Maiores informações podem ser obtidas no site oficial ou nessa matéria de 2014. Lamentavelmente faleceu precocemente, num acidente automobilístico. Como tantas vezes acontece, e até um depoimento nessa matéria de TV feita na ocasião deixa marcado, o reconhecimento às vezes não atinge o criador em vida. E finalmente, para ter um panorama mais amplo de sua vida e obra, felizmente há o documentário No balanço do mar, dirigido por Ieda Beck. Tem aí pelos menos duas histórias que ainda merecem maiores incursões na historiografia da música popular brasileira, uma a que possa avaliar de forma mais abrangente a força centrípeta exercida pelo Rio em relação a outras regiões brasileiras nesse período do auge da bossa (para Minas sei que existe os trabalhos de pesquisa coordenados pelo caríssimo Adalberto Paranhos  inclusive a monografia da querida colega pesquisadora Sheila Diniz Castro). Outra é essa verdadeira leva de músicos brasileiros, de grandes estrelas a anônimos batalhadores que foram enfrentar essa aventura de conquistar espaço nos EUA, empreitada corajosa e cheia de percalços, como dá pra sacar pelo depoimento que a Flora Purim dá no documentário, por exemplo. Cheguei a pensar um capítulo sobre isso na minha tese, para o qual reuni até um material que a assessoria da Flora e do Airto Moreira me enviou, mas acabei sendo obrigado a reduzir o assunto a uma incursão rápida sobre os trabalhos feitos por Milton Nascimento por lá até o final dos anos 1970. 

Por fim, separei essa faixa aqui que me pegou de jeito, Jandira, de seu último LP gravado em 1975, significativamente denominado Mestiço. Sonzaço!


20 de abril de 2017

Sonhos acordes 1 - Dia desses sonhei Tom Jobim

No final do ano passado, numa conversa facebookiana com o amigo e colega pesquisador João Marcos Veiga, ele me contou que sonhara com Tom Jobim. Achei esse lance notável, e fiquei dando tratos à bola. Surgiu então a ideia de lançar uma série, em que eu chamaria convidados para escrever livremente em formato de ensaios curtos sobre um encontro imaginário com um músico que admira. Nasceu assim "Sonhos acordes".
Nada mais justo do que ser o próprio instigador da ideia o estreante, e como os leitores poderão constatar é uma estreia galante, totalmente digna para homenagear nosso maestro soberano. 


Dia desses sonhei Tom Jobim
por João Marcos Veiga
Dia desses sonhei Tom Jobim. Antes dele, porém, me veio um cheiro de terra molhada em fim de tarde de março, com o calor logo a misturar as estações. Estava eu não sei em que espaço, num tempo suspenso e inebriante, mas igualmente premonitório de algo grandioso que me rondava, como se estivesse dentro da introdução de "O Boto". Em meio a sons e gostos que ainda não distinguia, eis que o vi ao longe, sozinho numa trilha, camisa aberta, uma mão a segurar o chapéu e a outra a apontar, com olhar atento, o remexer das folhas na copa de uma figueira. É o vento ventando, é uma ave no céu. Talvez jereba imitando o vento, expandindo suas asas soberanas. Tom sorriu. No turbilhão próprio dos sonhos, logo fui tragado pelo desfilar de cenas indistintas. Tomando assento lentamente, passei a distinguir as cores do cenário no qual eu me corporificava, pouco coerentes com a primeiro. Estava eu numa festa, à beira de uma piscina e também de um imenso rio. Pessoas dançavam alegremente, com ares de ritual indígena, ao som de um carimbó. Aromas inebriavam aquele ambiente insólito. Em estado de vertigem, atento que ao meu lado agora está Tom Jobim, confortavelmente segurando uma caipirinha de carambola. "O Brasil é uma coisa né, meu jovem", disse soltando  uma jocosa gargalhada. Dando por mim em tal situação, tinha eu pressa de não perder aquela oportunidade de conversa ribeira com Antonio Carlos Jobim. "E a bossa nova, a música brasileira, onde foram parar?" Mas o maestro não parecia interessado naquele assunto. Queria saber da pimenta-de-cheiro que salpicava seu olfato, dos vestidos que cintilavam naquela dança. Mas sobretudo se divertia em identificar sabiás, rolinhas, bem-ti-vis e toda a natureza que resplandecia em nosso entorno. Eis que, me passando a caipirinha de carambola, parecia cansado, nostálgico, como se quisesse talvez descansar à sombra de uma palmeira que já não há. Where is te paradise i've made for you. Where is te greeen? And where is the blue? "O Brasil é um caso sério, meu rapaz", disse ele voltando a sorrir, apertando os lábios para melhor sentir o gosto da cachaça que sorvia. Quando já bolava eu assuntos e questões para dar prosseguimento àquele rumo de nossa prosa, eis que me encontro novamente sozinho naquela Terra Brasilis, com o sol a desmaiar ao longe. O sonho é o mistério profundo. É o queira ou não queira.


P.S.  do editor
Me  ocorreu que seria consequente encerrar sempre com alguma música do 'sonhado'. 
Escolhi O Boto (Jobim/Jararaca)